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Cultura e hospitalidade: O que faz de Florianópolis destino certo da comunidade russa

Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, entre 2020 e 2025 foram registrados 4.191 imigrantes russos no Brasil
22/09/2025 - 07:37 - Atualizada em: 22/09/2025 - 07:37
Segurança e qualidade de vida tornam Florianópolis destino de russos. — (Foto: Redes sociais/Reprodução)
Segurança e qualidade de vida tornam Florianópolis destino de russos. — (Foto: Redes sociais/Reprodução)

Nos últimos meses, um novo movimento tem chamado atenção dos moradores de Florianópolis: a chegada de cada vez mais imigrantes russos. O que estaria levando pessoas a cruzarem mais de 12 mil quilômetros para viver na Ilha da Magia?

Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, entre 2020 e 2025 foram registrados 4.191 imigrantes russos no Brasil. Santa Catarina recebeu 1.300 desses registros e, só em Florianópolis, o número chega a 1.170, concentrando quase toda a presença russa no Estado.

Além disso, conforme o último Censo Demográfico do IBGE, com dados sobre migração, publicado em 2022, Santa Catarina apresentou o maior saldo migratório e a maior taxa líquida de migração em 2022.

Entre 2017 e 2022, o Estado registrou um ganho populacional de 354 mil pessoas, uma contribuição de 4,66% à sua população total.

Os motivos da escolha por Florianópolis

Dois moradores representam essa nova onda de imigração: Valentina Mikheeva, que vive na cidade há dois anos com a família, e Stanislav Efimov, que chegou mais jovem ao Brasil e fixou residência em Florianópolis após passar por outras cidades brasileira.

Valentina lembra que a guerra foi decisiva para sair da Rússia.

— Porque quando essa guerra começou, eu não queria morar lá mais, e eu saí da Rússia. Acho que 10 dias depois que a guerra começou — conta Mikheeva.

A escolha pelo Brasil foi motivada pela afinidade cultural e pela rede de contatos.

— Eu já conheço algumas pessoas do Brasil, da América do Sul, e eu queria morar aqui porque eu gosto da cultura do Brasil, e acho que é muito importante para mim, porque a cultura aqui é muito parecida com a cultura na Rússia — afirma Valentina.

Já Stanislav chegou ao Brasil há oito anos, ainda com 20 anos de idade. A oportunidade surgiu de forma inesperada. Ele aterrissou, inicialmente, em São Paulo:

— Foi uma oportunidade, eu tinha uma empresa de produção audiovisual na Rússia, e um russo me convidou para eu fazer um filme documentário no Brasil. Quando ele falou Brasil, para mim foi um ponto na mapa que jamais um dia eu conseguiria conhecer. E aí eu fui ver vários vídeos no YouTube, e falei Brasil é tão diferente, tem poucos russos lá, e topei essa oportunidade.

Ele desembarcou com pouco dinheiro e sem falar português.

— Cheguei sem falar nada de português, com 20 anos, e com 2 mil reais no bolso — comenta o russo.

A ideia inicial era ficar apenas algumas semanas, mas a experiência se transformou em vida nova.

Após quatro anos em São Paulo, decidiu mudar para Florianópolis.

— Eu tive uma agência de marketing focada na área de saúde, as coisas estavam indo muito bem. Só que eu comecei a perceber que eu estava só focado no trabalho, não tinha muitos amigos.. Nesse meio tempo eu viajei para Florianópolis, vi que aqui tem muito mais russos. Eu falei, cara, eu quero isso, eu sou jovem, eu posso mudar, eu não tenho âncoras ainda — relembra Stanislav.

Na Ilha, Stanislav encontrou equilíbrio entre trabalho, natureza e comunidade.

— Foi tudo de bom, porque aqui é uma ilha, a qualidade de vida é melhor, aqui eu tenho mais amigos russos, também fiz amigos brasileiros, então para mim Floripa é maravilhoso — acrescenta o russo.

— Hoje em dia, se você colocar Florianópolis em russo no YouTube, você tem vários vídeos, vários relatos de várias famílias que chegaram para cá, que dizem que aqui é seguro, qualidade de vida maravilhosa — acrescenta Stanislav.

Choque cultural

A russa destaca que, ao contrário do que muitos pensam, não sofreu choque cultural.

— É tipo, vida, dia-a-dia, não é muito diferente. Me falam muitas vezes: ‘Uau, você é da Rússia, você deve ter choque cultural’, mas na verdade não, a vida é muito parecida. Sobre porque eu gosto de morar aqui, Florianópolis, aqui é seguro — relata a imigrante.

Segurança foi um dos fatores mais importantes para a mudança.

— Eu nasci na Sibéria, e morei lá toda a minha vida, e lá é muito seguro. E para mim, é muito importante morar em uma cidade segura. E aqui eu sinto — comenta Valentina Mikheeva.

Ela também se surpreendeu com a receptividade.

— Acho que são pessoas muito abertas. Todos os meus vizinhos querem me ajudar — afirma a russa.

O clima, para quem veio de temperaturas negativas, também é um atrativo.

— Aqui é calor, mas não todo ano. Tem também inverno e verão. Acho que aqui o clima é muito bom. Não muito frio, não muito quente, perfeito — comenta Mikheeva.

Valentina ainda não tem cidadania, mas considera esse um fator importante.

— Meus filhos já têm, mas eu não tenho ainda. Mas acho que é muito bom quando estrangeiros conseguem cidadania, se eles querem fazer parte do país, se você quer ficar aqui para toda a sua vida ou para muito tempo — enfatiza a russa.

Sobre voltar, ela é categórica:

— Agora, eu acho que eu não vou voltar para a Rússia no futuro, porque eu quero morar em um país com mais liberdade, como o Brasil. Eu estou feliz aqui.

Já Stanislav não descarta, mas tem outro foco.

— O meu sonho é eu poder ter essa liberdade geográfica. Então hoje eu estou em Florianópolis, daqui três dias eu estou na Bahia, daqui uma semana eu estou em Brasília, daqui três semanas eu estou em Moscou. Para mim isso é uma coisa inegociável, ter essa liberdade e poder explorar o mundo — conta Efimov.

Apoio aos migrantes

A Prefeitura de Florianópolis oferece suporte para que migrantes possam se estabelecer. Por exemplo, a Casa do Empreendedor atua em parceria com a OIM Brasil, Círculos da Hospitalidade e Missão Scalabrini, promovendo atendimentos, programas de capacitação e eventos como a Semana do Migrante.

A iniciativa é hoje referência no apoio ao empreendedorismo e à inserção econômica de novos moradores, fortalecendo a integração tanto de estrangeiros quanto de brasileiros vindos de outras regiões.

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