Santa Catarina tem apenas dois ambulatórios especializados para atender pessoas trans
A primeira dose de hormônio tomada por Lee Gonçalves de Azevedo, com acompanhamento médico, aconteceu um dia antes do seu aniversário de 32 anos. O passo corajoso representava, em dobro, o início de um novo ano de vida.
Todo o processo, dos exames físicos aos psicológicos, foi acompanhado e orientado pelo Ambulatório Trans, em Florianópolis.
Hoje, em Santa Catarina, apenas duas unidades de saúde são especializadas no atendimento da comunidade transgênero. Uma fica localizada em Florianópolis, no Ambulatório Trans, e a outra em São José, o Ambula Trans.
Lee, de 36 anos,é uma pessoa não-binária — uma identidade de gênero que não se enquadra no binarismo entre homem ou mulher — e decidiu iniciar o processo de hormonização ainda quando morava em Balneário Camboriú.
— Comecei a sentir uma urgência para iniciar o processo e para ser atendido, então procurei atendimento no postinho de saúde na moda aventureiro: simplesmente fui lá, e não foi uma experiência legal — conta o bartender.
Em Florianópolis, geralmente, o processo de hormonização se inicia com uma análise psicológica, passa por exames de saúde física e, depois de tudo isso, chega à aplicaçãode hormônios, propriamente.
Mas em Balneário Camboriú, assim como em muitas outras cidades de Santa Catarina sem uma unidade especializada no atendimento à saúde de pessoas trans, a trajetória não acontece assim.
Lee chegou a solicitar os exames com o endócrino junto ao médico do posto de saúde da sua região, mas, ao retornar para a próxima consulta, o médico responsável tinha se demitido e sua unidade de saúde começava uma reformulação. Segundo o posto de saúde na época, por causa da nova configuração, seu atendimento tinha sido suspenso.
Sem acompanhamento médico, exames ou qualquer medida de prevenção de danos, Lee entrou em contato com o mercado clandestino de hormônios. Encontrou uma rede de venda e distribuição de hormônios de maneira irregular e tomou sua primeira dose.
— Na época, eu estava passando por episódios bem intensos de muita disforia de gênero e ansiedade. Cheguei a tomar uma dose de testosterona assim, mas fiquei com medo de dar continuidade, porque não teria acesso aos exames. Então, acabei parando com a hormonização e só dei continuidade quando vim para Florianópolis.
Unidade em Florianópolis
O Sistema Único de Saúde é organizado geograficamente. As unidades são distribuídas pelos bairros que, em teoria, devem atender somente aos moradores da região. Com o Ambulatório Trans de Florianópolis, o sistema funciona da mesma forma.
Apesar de ser localizado no Centro, a unidade anexada à Policlínica do Centro, na Avenida Rio Branco, atende a comunidade trans de toda a cidade de Florianópolis. O mesmo vale para o ambulatório de São José, no bairro Campinas.
Entre janeiro e junho de 2025, o Ambulatório Trans realizou 1.588 consultas médicas, 385 consultas de enfermagem e 260 atendimentos psicológicos. Segundo dados da Prefeitura de Florianópolis, 886 pessoas foram atendidas nesse período. Em 2024, o número de pessoas atendidas chegou a 1.879.
Para ser atendido em Florianópolis, é necessário possuir algum comprovante de residência na cidade.
Quando Lee foi atendido, ele já estava em um processo de mudança para a Ilha. Seu pai morava na cidade, então conseguiu o comprovante de residência necessário para o atendimento. Mas isso não acontece com todo mundo. Nesses casos, a própria comunidade precisa criar alternativas.
— A gente consegue prestar apoio para quem precisa, às vezes até empresta um comprovante de residência para poder ajudar no atendimento — afirma Mirê Chagas.
Mirê tem 31 anos e é uma mulher trans, integrante de diversos coletivos e grupos sociais, incluindo a Rede Trans UFSC. Quando ela diz “a gente”, ela se refere às organizações sociais de pessoas transgênero e transexuais em Florianópolis.
Graças ao coletivo, a assistente social descobriu a existência do Ambulatório Trans e teve seu primeiro atendimento associado à sua identidade de gênero.
— Na época que cheguei ao Ambulatório, eu estava passando por uns episódios bem intensos, psicologicamente – causados por transfobia, racismo… —, conta Mirê; ela também é uma mulher negra. — Então, esse primeiro atendimento nem era necessariamente de hormonização, eu vim porque precisava de um acolhimento psicológico.
Serviços e projetos
Além do acompanhamento de hormonização e atendimento psicológico, o Ambulatório Trans oferece serviços de cuidados com a saúde, como a prevenção combinada ao HIV e outras ISTs para a comunidade transexual de Florianópolis.
O acesso aos medicamentos, como testosterona, estradiol e ciproterona também são receitados e disponibilizados gratuitamente pela Farmácia da Policlínica do Centro, onde fica localizado o ambulatório.
Atualmente, a unidade de Florianópolis tem um quadro com quatro funcionários, entre médicos, psicólogos e enfermeiros. Segundo uma das fontes encontradas no próprio Ambulatório, a equipe está sem assistente social.
Segundo a Secretaria de Saúde do Estado, cada município tem autonomia sobre as unidades. Desta forma, a responsabilidade sobre o gerenciamento, assim como a decisão ou não de abrir uma unidade específica para a comunidade trans, recai sobre as gestões locais.
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