A flor resistente e tóxica que gerou alerta em cidades de Santa Catarina
A espirradeira, como é conhecida a flor Nerium oleander, comum em jardins e vias públicas de Santa Catarina, carrega uma contradição pouco conhecida. A mesma planta que se tornou símbolo da reconstrução de Hiroshima por florescer após a bomba atômica é hoje considerada uma das espécies mais tóxicas.
Muito utilizada como ornamental pela sua forte resistência, a espirradeira pode causar intoxicação apenas com o toque da seiva, pela ingestão acidental ou até pela inalação da fumaça de sua queima. A planta contêm substâncias que afetam principalmente o sistema cardiovascular.
Presença da flor em Santa Catarina
Apesar de não haver a proibição de plantio da espirradeira, a cidade de Araranguá, no Sul do Estado, emitiu um alerta em abril deste ano sobre a presença da planta nas áreas urbanas. O munícipio, em parceria com a Fundação Ambiental do Município de Araranguá (FAMA), passou a orientar moradores a evitar o plantio e a substituir exemplares já existentes por espécies mais seguras.
A recomendação vem justamente da frequência com que a planta aparece em áreas urbanas de SC, especialmente em regiões litorâneas.
O biólogo Paulo Horta, pesquisador e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), explica que a popularidade da espirradeira se deve a sua capacidade de se adaptar a quase qualquer ambiente.
— É uma planta muito bonita e incrivelmente resistente. Cresce bem em solos arenosos, suporta ventos fortes, resiste à seca e se desenvolve com facilidade em regiões litorâneas — afirma Paulo.
Mas essa resistência vem acompanhada de toxicidade extrema, de acordo com o biólogo. A seiva pode irritar a pele e as mucosas. Se atingir os olhos, causa inflamação severa. E a fumaça liberada pela queima dos galhos também é tóxica.
— Todas as partes da espirradeira são tóxicas. A ingestão acidental pode levar a sintomas graves, incluindo problemas gastrointestinais e até mesmo cardíacos. E isso vale para pessoas, pets e até para animais silvestres — explica Horta.
Veja fotos da espirradeira






O que fazer em caso de contato com a flor
O Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Santa Catarina (CIATox/SC) compartilha algumas orientações sobre o que fazer em caso de contato com plantas tóxicas.
Em contato com a pele, deve-se remover a roupa contaminada e lavar a área afetada com água corrente por 15 a 30 minutos usando luvas para proteção.
Em caso de ingestão, a pessoa deve remover qualquer produto restante na boca e procurar o serviço médico mais próximo. O Centro ressalta que não se deve induzir vômitos ou ingerir ovos crus, sal, vinagre ou sucos de frutas cítricas.
Ao ter contato com a planta na área dos olhos, deve-se lavar imediatamente o olho atingido com água corrente ou soro fisiológico por 15 a 30 minutos sem interrupção. A lavagem deve ser no sentido lateral, a fim de evitar o comprometimento do outro olho.
É importante lembrar que não se deve colocar jatos de água diretamente nos olhos. A recomendação é colocar a água sempre na testa ou acima do nariz, deixando escorrer para os olhos. Além disso, não se deve usar colírios, a não ser quando um médico prescrever.
Tóxica e bonita
Apesar da sua toxicidade, o biólogo Paulo Horta reforça que a flor foi extremamente exaltadas, principalmente durante a época da Segunda Guerra Mundial.
— Ela é a flor símbolo da reconstrução de Hiroshima. A capacidade de florescer naquele cenário devastado foi uma fonte de inspiração para os japoneses no pós-guerra. É uma espécie marcada por essa dualidade: beleza e resistência de um lado, perigo e toxicidade do outro — conta.
Segundo o especialista, há ainda um interesse crescente da comunidade científica em compostos presentes na planta.
— Diversos estudos investigam se esses compostos podem ser utilizados no desenvolvimento de novos fármacos. Mas isso é pesquisa de laboratório e não diminui o risco do contato cotidiano com a planta —reforça.