Paixão pelo futebol vira alternativa à academia e cria conexão para mais de 250 adultos na Grande Florianópolis
“É um projeto que, para mim, não é só futebol: é muito mais que isso. Transcende”. Foi assim que o empresário Adolfo Cabral Filho, de 51 anos, definiu o Footmaster Brasil, uma escola de futebol para adultos acima dos 30 anos, logo após encerrar um treino sob o frio matinal de Florianópolis. Às 6h30, enquanto a cidade ensaiava os primeiros passos do dia, Adolfo e outros alunos já haviam deixado o conforto da cama quente para atravessar a cidade para mais uma aula do Footmaster.
O treino no projeto já faz parte de Adolfo e de outros 250 alunos no projeto, que iniciou como uma alternativa individual à musculação tradicional e hoje é uma escola de futebol para adultos, com seis unidades na Grande Florianópolis, somando mais de 250 alunos e 15 professores. O idealizador é Bruno Gonçalo, 36 anos, treinador com formação acadêmica e passagens pelas comissões técnicas de clubes como Avaí, Figueirense, Operário-PR, Barra e Guarani de Palhoça.

A história do Footmaster começa antes de ter nome, uniforme, aplicativo, calendário de desafios ou partidas em estádios. Começa com uma insatisfação bastante simples: Bruno não gostava de academia e, se pudesse escolher, preferia jogar bola. “Eu pensava: não é possível que só eu pense assim”, recorda o fundador.
Em um período de transição na carreira, ao retornar a Florianópolis para trabalhar no Figueirense, ele encontrou brechas na agenda e resolveu colocar a ideia em prática. Planejou os treinos, comprou os materiais, encontrou um campo na Trindade, onde já havia desenvolvido um projeto social, e decidiu que os primeiros treinos seriam às 6h30. O horário não foi estratégia de marketing ou por alguma teoria sobre produtividade matinal, mas era o único que cabia em sua rotina por ser a única janela disponível antes de seu expediente no clube.
Na estreia, convidou amigos de infância para testar a dinâmica e gravou o treino para divulgar no Instagram. “Galera, vocês confiam em mim?”, questionou aos amigos na época. Confiavam. Então ele pediu que aparecessem às 6h para jogar bola, que seria “uma vez só e depois não precisa mais”, e foi assim que mais de 30 alunos acordaram cedo para estar presentes. Os amigos não continuaram, mas as redes sociais e o boca a boca fizeram o projeto disparar.
Um dos primeiros alunos a chegar a partir da divulgação foi Fábio. Sem conhecer Bruno pessoalmente, ele apareceu para o primeiro treino e permanece no projeto até hoje. Conforme a turma inicial de 30 alunos cresceu, a demanda tornou-se grande demais para um treinador só. Foi quando Bruno trouxe o primeiro reforço para a comissão técnica: o professor Guilherme dos Santos Oscar.
Aos 49 anos, Oscar carrega a paixão pelo futebol desde a infância em Porto Alegre, influenciado pela família e pelos amigos. Chegou a tentar a carreira como jogador no Grêmio aos 14 anos, passando por testes e categorias de base na capital gaúcha. Contudo, sua verdadeira vocação e trajetória profissional acabaram se desenvolvendo na preparação física.
Durante oito anos, trabalhou na escolinha do Grêmio e, em seguida, teve uma passagem pelo São José. Foi lá que surgiu a oportunidade da sua vida, quando o atacante Pedro Rocha foi vendido ao Spartak Moscou, levou Oscar para a Rússia como seu preparador físico particular. Mais tarde, ele também acompanharia o jogador em sua passagem pelo Cruzeiro, em Belo Horizonte.
Em 2020, já morando em Florianópolis, Oscar sofreu um acidente e fraturou a cervical. Recuperado, retornou ao futebol profissional pelo Figueirense, onde atuou por dois anos e três meses. Foi no clube alvinegro que conheceu Bruno, que buscava reforços para seu novo projeto. Como Oscar procurava uma atividade para complementar sua rotina, aceitou o convite para conhecer a proposta.
Bastou uma aula experimental para que a sintonia fosse imediata. Oscar aprovou o método, Bruno gostou do trabalho e a parceria se selou. Hoje, com mais de dois anos de casa, ele carrega o posto de primeiro contratado e professor mais antigo do Footmaster. Contudo, a transição para o futebol de adultos trouxe uma grande mudança. Acostumado a lidar com pré-adolescentes, categorias de base e atletas profissionais, Oscar passou a orientar alunos acima dos 30 anos no Footmaster — o que exigiu adaptar a metodologia e os objetivos.
Mais do que a evolução em campo, a rotina passou a ser marcada pelas conversas, pela descontração e pela diversidade do grupo. “Um aluno é advogado, outro é médico, outro de uma área completamente diferentes. O Footmaster agregou muito na minha caminhada em termos de conhecimento. Começar o dia aqui já muda completamente minha energia”, destaca.
Confira imagens do treino







Metodologia
Essa energia se traduz na própria dinâmica dos treinos, desenhada para manter os alunos em movimento constante. Na Trindade, unidade pioneira do projeto, a semana se divide entre diferentes formas de jogar futebol, onde as segundas e quintas-feiras são dedicadas ao treino de campo; terça é dia de trabalho físico na areia; e quarta-feira é reservada para o jogo.
É uma programação que procura levar para uma escola de futebol para adultos uma estrutura que lembra a rotina de clubes profissionais. Quando chove, existe o campo sintético; quando a chuva é fraca, pode-se aproveitar o gramado. Há também o trabalho na areia, voltado ao condicionamento. A lógica é não deixar que o tempo seja suficiente para interromper a rotina.
Além disso, na estrutura do treino, não há posição fixa nem cobrança excessiva: os professores trabalham fundamentos, aquecimento e situações de jogo respeitando o ritmo de cada um, desde quem já domina a bola até quem está aprendendo a chutar. Alguns chegam sabendo jogar. Outros chegam sem saber chutar.
Para Oscar, essa diversidade de treinamentos é parte da identidade do projeto: “O nosso corpo agradece muito em relação a isso e, consequentemente, nossa cabeça se torna muito mais leve”. Já Bruno explica que gosta de dizer que há planos A, B e C: “O cara só não treina se não quiser.”
Quem vivencia essa dinâmica na prática é o servidor público Jeferson Macedo, de 36 anos. Morador da Trindade, ele trabalha na Secretaria de Infraestrutura do Estado, sempre quis jogar futebol e nunca se adaptou à academia. Há cerca de três anos, encontrou o Footmaster pelo Instagram e hoje treina pelo menos duas vezes por semana. Ele conta que, antes do Footmaster costumava se machucar, jogava mal e fazia as coisas “errado”. Agora, sente que está evoluindo.
A motivação inicial era praticar o esporte que ama, mas os benefícios logo ultrapassaram as quatro linhas. “O sedentarismo estava demais, eu estava ganhando peso”, relembra. “Aqui melhora a qualidade de vida”, conta o servidor, que enxerga os colegas como uma família. “O futebol é o motivo da reunião, mas não necessariamente o limite dela”, comenta.
O empresário Adolfo compartilha da mesma visão. Após várias tentativas frustradas de manter uma rotina de musculação, encontrou no projeto a combinação ideal entre atividade física, saúde e futebol. Para ele, o campo abre espaço até para as pequenas descargas de adrenalina do jogo, como os desabafos, as reclamações e os chutes para o alto. Depois, saem dali e seguem o dia. Para Adolfo, a diferença está justamente nisso, o exercício deixa de ser uma obrigação isolada e vira parte de uma rotina de que ele gosta.
Mais do que a própria evolução, ele destaca o caráter inclusivo das aulas ao lembrar de alunos que chegaram sem saber jogar. “Têm algumas pessoas que não poderiam nunca jogar futebol e estão aqui brincando e fazendo o que tem de melhor numa escolinha”, pontua.
Essa percepção de que o Footmaster entrega muito mais do que futebol é um dos feedbacks que Bruno mais escuta e que ainda tenta dimensionar. A aceitação do público impulsionou uma expansão rápida: o que começou na Trindade logo ganhou filiais em Capoeiras, Campeche, Jurerê, Palhoça e Biguaçu.
A segunda unidade, inclusive, nasceu quase por acaso. Quando um acordo para trabalhar fora de Florianópolis foi cancelado, Bruno decidiu permanecer na cidade e abrir uma nova turma. A partir dali, passou a planejar estrategicamente a presença do projeto em todas as regiões da Grande Florianópolis: Norte, Sul, Centro e Continente.
Cada unidade possui seus próprios materiais e uma comissão técnica. Alguns professores trabalham em mais de um lugar porque existem horários diferentes, treinos pela manhã e à noite. Bruno procura, sempre que possível, professores que tenham passado pelo futebol profissional. A rede de contatos que construiu nos clubes ajuda.






O ex-goleiro Eduardo Moreira de Souza é um desses exemplos. Sua caminhada no futebol começou aos 12 anos em uma escolinha, passou pelas categorias de base do Figueirense e se profissionalizou no Avaí, além de ter atuado por clubes do Rio Grande do Sul e da Bahia.
Quando pendurou as luvas, continuou no esporte como treinador. Conheceu Bruno no Avaí. Na época, Eduardo estava no profissional e Bruno fazia parte da comissão das categorias de base. A amizade atravessou os anos e chegou ao Footmaster, onde está há três anos. Para o ex-goleiro, o projeto ocupa um lugar que a musculação tradicional não consegue preencher para algumas pessoas: oferecer uma atividade física organizada em torno de algo que elas gostam, “A gente pega a galera que não gosta de fazer academia, que fazia escolinha quando era criança e hoje se reencontrou no projeto”, comenta. Na Trindade, ele testemunha diariamente a integração entre profissionais das mais diversas áreas — laços que continuam firmes após o apito final.
Desafios, cestas básicas e o sonho do Maracanã
A demanda por jogos entre as turmas também partiu dos próprios alunos. Em vez de criar um campeonato tradicional, que poderia incentivar disputas acirradas, Bruno optou por um formato focado na integração. “Em vez da gente jogar campeonato e ficar se matando e se machucando e degladiando, criamos os jogos de integração entre as unidades”, explica.
Desta forma, a cada dois meses, acontecem os Desafios Footmaster. As unidades se enfrentam em partidas de integração; os confrontos mudam a cada edição para evitar que os mesmos times joguem repetidamente entre si. Palhoça contra Biguaçu, Trindade contra Jurerê, Capoeiras contra Campeche. Depois, os pares mudam. A ideia é não criar uma rivalidade permanente,
Há também uma regra: quem recebe cartão amarelo precisa pagar uma cesta básica, que depois será doada. A punição deixa de ser apenas uma punição. O jogador sabe que uma entrada mais forte pode custar dinheiro e, ao mesmo tempo, resultar em uma doação. “A ideia não é bater. A ideia não é machucar. A ideia é você ir lá jogar”, pontua Bruno.
A experiência ganhou dimensão ainda maior com a ida dos alunos a palcos do futebol profissional, com partidas em estádios. Em 2024, o encerramento do ano aconteceu no Orlando Scarpelli, em 2025, na Ressacada. O encerramento de 2026 ainda está em definição. O projeto já tem, porém, um compromisso marcado para 2027, em 16 de janeiro, o primeiro desafio do ano será no Augusto Bauer, em Brusque.
Para alunos como o servidor Jeferson Macedo, que jogava futebol desde criança, mas se machucava por falta de orientação, jogar em um estádio profissional é uma das experiências que fazem o projeto ser diferente. “Todo ano tem um encerramento que a gente tenta jogar num estádio profissional, o que deixa a experiência muito legal”, avalia o servidor.
De treinador a gestor do Footmaster
Consolidar o Footmaster exigiu que Bruno desenvolvesse habilidades fora de sua zona de conforto. Durante muito tempo, ele dividiu o projeto com o trabalho nos clubes. Em abril do ano passado, ao deixar o Figueirense por escolha própria, a lógica mudou e o Footmaster se tornou sua principal fonte de renda e exigiu dedicação integral.
A transição de treinador para gestor trouxe o desafio das contas, da administração e da contabilidade. E os erros. Bruno conta que fez “muita lambança financeira” no começo. Alguns alunos o ajudaram a procurar o Sebrae, um deles conseguiu uma consultoria financeira.
No primeiro dia, Bruno sentiu vergonha por não entender o que o consultor falava. Na faculdade de Educação Física, não havia aprendido aquilo. Agora precisava dominar o assunto. “Eu fiquei com vergonha do consultor porque eu não sabia nada do que ele estava falando. Ele me ensinou muito”, relata.
Até o nome do projeto precisou mudar. A profissionalização trouxe também a necessidade de registrar e estruturar a marca. O nome original, FUT Master, precisou ser adaptado para Footmaster Brasil. A identidade visual ganhou cores específicas para cada unidade durante os Desafios — preto para Trindade, branco para Capoeiras, vermelho para Campeche, azul para Jurerê, amarelo para Palhoça e verde para Biguaçu —, facilitando a identificação dos atletas nas transmissões ao vivo do canal do projeto no YouTube.
A operação hoje é centralizada em um aplicativo próprio, onde os alunos gerenciam planos de uma a quatro vezes por semana, fazem check-in nas aulas e compram os uniformes oficiais.
Impacto na vida dos alunos
Com uma média de permanência dos alunos próxima a dois anos, Bruno reconhece que o projeto alcançou um impacto difícil de mensurar. “Acho que eles me entregam mais do que eu entrego para eles”, reflete o treinador, que trocou a busca pelo futebol profissional pela gestão da escola de adultos. “Eles fizeram eu sair do meu sonho, que era ser treinador de futebol profissional, para viver esse projeto, porque eles me entregam muito mais alegria. Eles mudaram a minha vida”
O projeto agora prepara voos mais altos com o Footmaster Legacy, iniciativa para levar os alunos para jogar fora de Florianópolis. Em dezembro, um time de alunos participa de uma partida preliminar no Maracanã, dentro da programação do tradicional jogo de fim de ano do Zico. Quando as vagas foram abertas, formou-se fila de espera instantânea. Bruno diz que será uma maneira de realizar um sonho, jogar no que chama de “templo do futebol brasileiro”. “Lá eu me divirto um pouquinho e usufruo desse sonho.”

Nos planos para o futuro, há também uma viagem com jogos organizados na Argentina. Nesses momentos, Bruno reencontra a essência do treinador que sempre quis ser: cobra rendimento, vibra à beira do campo e desfruta do ambiente. “A proposta do projeto é essa comunidade; a gente fica forte e enraizada junta”, finaliza.
*Sob supervisão de Vitória Hasckel