Psicólogo afirma: “tiramos da infância justamente os remédios naturais contra a ansiedade”
Psicólogo Rossandro Klinjey afirma que o aumento dos transtornos mentais na infância também precisa ser observado a partir da rotina familiar, escolar e social
Antes mesmo de completar 10 anos, uma criança brasileira já tem mais chances de conviver com uma incapacidade associada à ansiedade do que com qualquer doença física, segundo dados publicados na The Lancet Regional Health. Entre crianças de 5 a 9 anos, cerca de 12,6% já preenchem critérios para pelo menos um transtorno mental, a maior proporção registrada entre as diferentes faixas etárias.
Rossandro Klinjey afirma que os números colocam em discussão não apenas o diagnóstico e o tratamento dos transtornos de ansiedade na infância, mas também o ambiente em que essas crianças estão crescendo, ele explica que os sinais apresentados por uma criança pequena não podem ser analisados de forma isolada, sem considerar as relações e o cotidiano ao redor dela. “Criança pequena adoece do ambiente antes de adoecer de si mesma.”
Outro ponto levantado pelo psicólogo é o papel dos adultos na regulação emocional das crianças (Foto: Banco de Imagens)
Segundo Klinjey, uma criança de sete anos diagnosticada com transtorno de ansiedade pode estar expressando, em parte, tensões presentes na família, na escola e na própria sociedade. O psicólogo defende que é necessário observar o contexto antes de reduzir o sofrimento infantil exclusivamente a uma questão individual.
“Uma menina de 7 anos com transtorno de ansiedade é sintoma da casa, da escola, do mundo que a gente montou pra ela.”
Para o psicólogo, mudanças na forma como a infância é vivida também ajudam a compreender o cenário. Atividades espontâneas, momentos de tédio e o brincar livre, que funcionavam como espaços naturais de desenvolvimento e regulação emocional, teriam perdido espaço na rotina de muitas crianças. “A gente tirou da infância justamente os remédios naturais contra a ansiedade: o brincar livre, o tédio e tudo que é maravilhoso fazer junto” afirma.
A reflexão de Rossandro Klinjey sobre o ambiente que pode adoecer as crianças
A comparação usada por Klinjey é a de uma planta que deixa de receber água e, depois de murchar, tem a própria condição tratada como se fosse a causa do problema. “É tirar a água da planta e dizer que foi uma doença que a fez murchar.”
Outro ponto levantado pelo psicólogo é o papel dos adultos na regulação emocional das crianças. Nos primeiros anos de vida, pais, responsáveis e outros adultos próximos ajudam a criança a compreender e administrar emoções que ela ainda não consegue regular sozinha.
O problema, segundo Klinjey, é que os adultos também estão inseridos em uma rotina marcada pela ansiedade e pelo excesso de estímulos. “Hoje, o adulto que deverá emprestar a calma está tão ansioso quanto a criança. E ninguém empresta o que não tem.”
Para ele, o desafio está em evitar que o diagnóstico seja tratado como uma resposta isolada. O acompanhamento profissional pode ser necessário, mas precisa vir acompanhado de uma análise sobre as condições que cercam a criança. “Se a saída for só o diagnóstico e remédio, sem mexer no modo de vida, vamos tratar a criança para devolvê-la intacta para o que a adoeceu.”
Assista ao comentário completo de Rossandro Klinjey no quadro “Refletir para Viver”