Psicólogo afirma: “Amor maduro é saber que o vínculo aguenta o silêncio”
Uma amizade pode passar quase duas décadas sem contato e, ainda assim, permanecer intacta. Foi essa a reflexão feita pelo psicólogo Rossandro Klinjey após reencontrar, na semana passada, um amigo dos tempos de universidade. Os dois não se viam havia mais de 18 anos, mas, segundo ele, a distância não impediu que a intimidade construída no passado permanecesse.
Na época da universidade, os caminhos eram compartilhados. Depois, a vida levou cada um para uma cidade e uma profissão diferente: ele seguiu na engenharia, enquanto Rossandro escolheu a psicologia. Quase duas décadas depois, o reencontro foi marcado pela sensação de continuidade. “Quando nos encontramos parecia que não havia acontecido interrupção nenhuma. A conversa fluiu do mesmo ponto. A alegria estava intacta”, relata.

Para ele, porém, o aspecto mais significativo do reencontro foi outro, não havia cobranças acumuladas pelo tempo distante. Não existia a expectativa de justificar a ausência ou compensar os anos sem contato.
“Não tinha cobrança. Nenhuma fatura afetiva vencida esperando pagamento. Só o contentamento de saber da vida um do outro, dos filhos que nasceram, do caminho que trilhamos”
A reflexão de Rossandro Klinjey sobre quando a amizade vira obrigação
Para o psicólogo, uma das principais ameaças às relações de amizade é quando a presença passa a ser entendida como uma obrigação. Mensagens respondidas, visitas, encontros e demonstrações constantes de afeto podem se transformar em uma espécie de régua para medir a importância do vínculo. “Tem gente próxima que transforma o contato em contrato de presença. E assim vai medindo a amizade pela quantidade de mensagens respondidas, visitas feitas”, explica.
Nesse modelo, uma relação que deveria oferecer acolhimento e descanso passa a funcionar como uma lista de tarefas. A cobrança pela presença também pode levar à chamada “fusão”, quando uma pessoa sente que precisa abrir mão da própria individualidade para provar o amor ou a importância que dá ao outro. “Quando a relação exige que o outro abra mão de si pra provar o amor, ela adoece. O nome disso é fusão, e fusão sufoca”, afirma.
Rossandro defende que vínculos saudáveis precisam permitir que cada pessoa preserve sua identidade, seus interesses e seus próprios caminhos. Foi justamente isso que percebeu ao reencontrar o amigo da universidade depois de 18 anos. Mesmo sem contato durante todo esse período, a distância não foi interpretada como abandono. “A amizade que reencontrei sobreviveu porque cada um preservou sua identidade e confiou no laço”, conta.
Para ele, a experiência mostra que estar presente não significa necessariamente acompanhar todos os momentos da vida do outro. Uma amizade pode permanecer mesmo quando a rotina muda, a distância aumenta e o contato diminui. “Sem combinar, construímos uma relação cuja distância não foi interpretada como abandono. Um tipo de presença sem prisão”, afirma. Nesse sentido, relações duradouras seriam menos aquelas marcadas pelo contato constante e mais aquelas capazes de atravessar as mudanças da vida sem transformar a ausência em uma dívida afetiva. “Amor maduro é isso: saber que o vínculo aguenta o silêncio”, conclui.
Assista ao comentário completo de Rossandro Klinjey no quadro “Refletir para Viver”
*Sob supervisão de Vitória Hasckel