“Mulheres no Jogo”: Como as mulheres estão moldando o mercado gamer em Florianópolis
Florianópolis é, hoje, considerada a capital gamer do Sul do Brasil, reunindo cerca de 29 estúdios de desenvolvimento de jogos ativos. O crescimento do setor coincide com um movimento nacional em que quase 83% dos brasileiros jogam jogos digitais. Mais da metade desse público é feminino. É o que aponta a Pesquisa Game Brasil 2025.
A cidade, conforme dados do Stun Game Index 2025, se destaca por sua densidade tecnológica e políticas públicas de incentivo aos videogames e trabalho na área, fatores que vêm impulsionando a presença de protagonismo feminino no mercado.
Apesar disso, a área ainda é percebida por muitos como majoritariamente masculina. Essa visão em contrapartida ao mercado acaba provocando barreiras sociais para o trabalho de mulheres em Florianópolis.
Mercado ainda é visto como masculino
A participação feminina no mercado gamer ainda enfrenta dificuldades, principalmente no início da carreira. Para Giovanna Kalkmann, produtora de games e diretora executiva da Associação Catarinense de Desenvolvimento de Jogos (ASCJogos), nos últimos anos há uma certa melhoria.
— Existem mais mulheres na produção do que há alguns anos. Ainda não reflete totalmente o público, mas estamos avançando, especialmente em cargos criativos, marketing, arte e liderança — afirma.
As mulheres do mercado sentem o impacto, principalmente no meio acadêmico. Mari Cacer, formada em Design de Jogos pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), compartilha que não se reconhecia no mesmo nível dos colegas homens durante a graduação.
— Muitos tinham repertório de jogos desde a infância, algo que eu achava que não tinha. Isso era frustrante. Reconhecer que o que eu jogava também era jogo me deu mais confiança — relembra Mari.
Além disso, no mercado, a designer de jogos destaca como as mulheres da área vivenciam situações que os homens não enfrentam, mesmo em rodas de amigos e colegas de trabalho.
— Em conversa com minha rede de amigas incluídas no cenário, todas temos histórias muitos familiares de atitudes machistas, seja de cliente, colega ou até mesmo de professores. Isso diz muito sobre a sociedade em que estamos inseridas — diz Mari.
Apesar dos desafios, a profissional reafirma que isso não deve ser um impeditivo, já que, segundo ela, a realidade só muda quando “se empurra a mudança”.
— Precisamos de mulheres. Não é fácil, às vezes é doloroso, mas não existe nenhum papel que não possamos ocupar. Não somos menos que nossos colegas.







Iniciativas gamers em Florianópolis
O avanço feminino no mercado de jogos em Florianópolis é diretamente influenciado por iniciativas de capacitação. Um dos destaques é o Projeto Novos Talentos – SC Games, criado em 2009 pelo Governo do Estado, que oferece aulas gratuitas de programação, arte, design e criação de jogos para crianças e adolescentes da rede pública.
A coordenadora do programa, Márcia Battistella, afirma que esse tipo de ação fortalece toda a base do mercado.
— Florianópolis se destaca devido ao ecossistema tecnológico consolidado, às políticas públicas e à cultura empreendedora da cidade. Esse conjunto cria um ambiente fértil para que novas desenvolvedoras surjam — conta.
Ainda, segundo Márcia, o programa SC Games oferece a inclusão feminina desde cedo.
— Quero que as meninas saibam que este é um ambiente saudável, onde elas podem crescer e se destacar mundialmente como desenvolvedoras — diz.
A importância do projeto ressoa em meninas de todo o estado, como Mari Cacer que foi estagiária do programa:
— A Márcia me apoiou totalmente e me ajudou a explorar meu potencial, pois precisamos de mulheres inspiradoras. Depois do SC GAMES, passei por outras empresas e me juntei a um colega, que também participou do projeto, para criar nosso jogo — fala Mari.
O jogo em questão, Ghost Golfing, já foi premiado quatro vezes, incluindo “Gameplay Arrebatadora” no Stun Game Festival, que acontece anualmente em Florianópolis. Voltado para jogadores que curtem games de estratégia, o jogo deve ser lançado oficialmente em 2026, mas já ganhou um protótipo na plataforma de games Steam em outubro deste ano.
Criar comunidades impulsiona a todas
O sentimento das mulheres do cenário na capital catarinense é o de manter o pensamento que trabalhar com jogos não é um caminho impossível.
— O mercado de games é diverso, vivo e está em constante transformação. Cada nova mulher que entra fortalece esse movimento e ajuda a abrir caminhos para outras. A indústria precisa de diferentes vozes, olhares e vivências, e a presença feminina não é exceção, é impacto — afirma Giovanna.
Os eventos são parte fundamental nesse processo. Para Mari Cacer, esses momentos foram essenciais para se conectar com outras personalidades e auxiliar no reconhecimento da capacidade feminina.
— Meu maior impulso foram os eventos, que me permitiram criar conexões incríveis. O STUN Festival, o Passeio Geek, ações da própria faculdade. Conexão é a chave, não só para emprego, mas para troca de conhecimento — afirma a designer de jogos.
Para a diretora executiva da ASCJogos, Giovanna Kalkmann, esses são os lugares em que se deve “gastar a energia”.
— Acredito que espaços que não entendem a importância da diversidade simplesmente não estão alinhados com o tipo de trabalho e de comunidade que quero construir. E, felizmente, cada vez mais encontro profissionais e iniciativas que fortalecem esse caminho — diz.
Giovanna ainda conta que a comunidade em Florianópolis é unida, o que facilita o trabalho na área.
— Isso cria uma sensação real de rede. Eu diria que Floripa tem uma comunidade que se mobiliza de verdade. E quando existe esse movimento coletivo, o acolhimento acontece naturalmente.