Início » CBN Floripa » Cotidiano

“Mulheres no Jogo”: Como as mulheres estão moldando o mercado gamer em Florianópolis

Florianópolis é, hoje, considerada a capital gamer do Sul do Brasil e as mulheres são protagonistas nessa história
23/11/2025 - 10:00
mari cacer em seu estande na gamescom latam
Estande de Ghost Golfing, jogo idealizado por designer de jogos brasileira, na Gamescom Latam 2025 (Foto: Redes sociais, Reprodução)

Florianópolis é, hoje, considerada a capital gamer do Sul do Brasil, reunindo cerca de 29 estúdios de desenvolvimento de jogos ativos. O crescimento do setor coincide com um movimento nacional em que quase 83% dos brasileiros jogam jogos digitais. Mais da metade desse público é feminino. É o que aponta a Pesquisa Game Brasil 2025.

A cidade, conforme dados do Stun Game Index 2025, se destaca por sua densidade tecnológica e políticas públicas de incentivo aos videogames e trabalho na área, fatores que vêm impulsionando a presença de protagonismo feminino no mercado.

Apesar disso, a área ainda é percebida por muitos como majoritariamente masculina. Essa visão em contrapartida ao mercado acaba provocando barreiras sociais para o trabalho de mulheres em Florianópolis.

Mercado ainda é visto como masculino

A participação feminina no mercado gamer ainda enfrenta dificuldades, principalmente no início da carreira. Para Giovanna Kalkmann, produtora de games e diretora executiva da Associação Catarinense de Desenvolvimento de Jogos (ASCJogos), nos últimos anos há uma certa melhoria.

— Existem mais mulheres na produção do que há alguns anos. Ainda não reflete totalmente o público, mas estamos avançando, especialmente em cargos criativos, marketing, arte e liderança — afirma.

As mulheres do mercado sentem o impacto, principalmente no meio acadêmico. Mari Cacer, formada em Design de Jogos pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), compartilha que não se reconhecia no mesmo nível dos colegas homens durante a graduação.

— Muitos tinham repertório de jogos desde a infância, algo que eu achava que não tinha. Isso era frustrante. Reconhecer que o que eu jogava também era jogo me deu mais confiança — relembra Mari.

Além disso, no mercado, a designer de jogos destaca como as mulheres da área vivenciam situações que os homens não enfrentam, mesmo em rodas de amigos e colegas de trabalho.

— Em conversa com minha rede de amigas incluídas no cenário, todas temos histórias muitos familiares de atitudes machistas, seja de cliente, colega ou até mesmo de professores. Isso diz muito sobre a sociedade em que estamos inseridas — diz Mari.

Apesar dos desafios, a profissional reafirma que isso não deve ser um impeditivo, já que, segundo ela, a realidade só muda quando “se empurra a mudança”.

— Precisamos de mulheres. Não é fácil, às vezes é doloroso, mas não existe nenhum papel que não possamos ocupar. Não somos menos que nossos colegas.

Iniciativas gamers em Florianópolis

O avanço feminino no mercado de jogos em Florianópolis é diretamente influenciado por iniciativas de capacitação. Um dos destaques é o Projeto Novos Talentos – SC Games, criado em 2009 pelo Governo do Estado, que oferece aulas gratuitas de programação, arte, design e criação de jogos para crianças e adolescentes da rede pública.

A coordenadora do programa, Márcia Battistella, afirma que esse tipo de ação fortalece toda a base do mercado.

— Florianópolis se destaca devido ao ecossistema tecnológico consolidado, às políticas públicas e à cultura empreendedora da cidade. Esse conjunto cria um ambiente fértil para que novas desenvolvedoras surjam — conta.

Ainda, segundo Márcia, o programa SC Games oferece a inclusão feminina desde cedo.

— Quero que as meninas saibam que este é um ambiente saudável, onde elas podem crescer e se destacar mundialmente como desenvolvedoras — diz.

A importância do projeto ressoa em meninas de todo o estado, como Mari Cacer que foi estagiária do programa:

— A Márcia me apoiou totalmente e me ajudou a explorar meu potencial, pois precisamos de mulheres inspiradoras. Depois do SC GAMES, passei por outras empresas e me juntei a um colega, que também participou do projeto, para criar nosso jogo — fala Mari.

O jogo em questão, Ghost Golfing, já foi premiado quatro vezes, incluindo “Gameplay Arrebatadora” no Stun Game Festival, que acontece anualmente em Florianópolis. Voltado para jogadores que curtem games de estratégia, o jogo deve ser lançado oficialmente em 2026, mas já ganhou um protótipo na plataforma de games Steam em outubro deste ano.

Criar comunidades impulsiona a todas

O sentimento das mulheres do cenário na capital catarinense é o de manter o pensamento que trabalhar com jogos não é um caminho impossível.

— O mercado de games é diverso, vivo e está em constante transformação. Cada nova mulher que entra fortalece esse movimento e ajuda a abrir caminhos para outras. A indústria precisa de diferentes vozes, olhares e vivências, e a presença feminina não é exceção, é impacto — afirma Giovanna.

Os eventos são parte fundamental nesse processo. Para Mari Cacer, esses momentos foram essenciais para se conectar com outras personalidades e auxiliar no reconhecimento da capacidade feminina.

— Meu maior impulso foram os eventos, que me permitiram criar conexões incríveis. O STUN Festival, o Passeio Geek, ações da própria faculdade. Conexão é a chave, não só para emprego, mas para troca de conhecimento — afirma a designer de jogos.

Para a diretora executiva da ASCJogos, Giovanna Kalkmann, esses são os lugares em que se deve “gastar a energia”.

— Acredito que espaços que não entendem a importância da diversidade simplesmente não estão alinhados com o tipo de trabalho e de comunidade que quero construir. E, felizmente, cada vez mais encontro profissionais e iniciativas que fortalecem esse caminho — diz.

Giovanna ainda conta que a comunidade em Florianópolis é unida, o que facilita o trabalho na área.

— Isso cria uma sensação real de rede. Eu diria que Floripa tem uma comunidade que se mobiliza de verdade. E quando existe esse movimento coletivo, o acolhimento acontece naturalmente.

Destaques CBN