Início » CBN Floripa » Cotidiano

Menos burocracia ou mais risco? CNH sem autoescola divide opiniões em SC

Mesmo com a flexibilização, exames médicos e provas práticas continuam obrigatórios para garantir que o motorista esteja apto a dirigir
12/10/2025 - 10:00
Menos burocracia ou mais risco? Nova proposta de CNH sem auto-escola divide opiniões em SC. (Foto: Imagem Ilustrativa/Canva/Reprodução)
Menos burocracia ou mais risco? Nova proposta de CNH sem auto-escola divide opiniões em SC. (Foto: Imagem Ilustrativa/Canva/Reprodução)

O novo projeto que questiona a obrigatoriedade das aulas em autoescolas para quem deseja obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) reacendeu debates antigos em Santa Catarina. O Estado é o 16º do país onde mais se demora para conseguir pagar o processo de habilitação, segundo dados da Senatran e a proposta que recebeu aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no dia 1º de outubro de 2025, poderia mudar isso.

A medida, no entanto, divide opiniões e gera preocupação entre entidades de trânsito e o setor de formação de condutores. O documento segue em consulta pública até 2 de novembro, por meio da plataforma Participa + Brasil.

De acordo com o Ministério dos Transportes, o objetivo é cortar custos, que hoje chegam a R$ 3.217,64, para cerca de R$ 645. A economia viria da dispensa das aulas obrigatórias nos Centros de Formação de Condutores (CFCs).

Atualmente, cerca de 77% do valor da habilitação corresponde aos serviços prestados pelas autoescolas. O governo defende que o novo modelo permitirá que o cidadão escolha como quer se preparar, podendo fazer as aulas teóricas online e as práticas com instrutores independentes credenciados pelo Detran.

CNH sem autoescola: entenda a proposta

O projeto prevê mudanças iniciais para as categorias A (motocicletas) e B (veículos de passeio). A formação teórica poderá ser feita à distância (EAD), e o candidato não precisará cumprir a carga horária mínima exigida atualmente, de 40 horas de aulas teóricas e 20 práticas.

A abertura do processo seria feita pelo site da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) ou pelo aplicativo Carteira Digital de Trânsito (CDT).

Mesmo com a flexibilização, exames médicos e provas práticas continuam obrigatórios para garantir que o motorista esteja apto a dirigir.

O governo argumenta que o projeto não acaba com as autoescolas, mas cria liberdade de escolha para o aluno — o que, segundo o Ministério, pode beneficiar milhões de brasileiros que hoje dirigem sem habilitação por não conseguirem arcar com os custos.

Em Santa Catarina, onde o valor médio da CNH A+B é de R$ 3.404,36. Com renda média per capita de R$ 2.601, um catarinense precisa trabalhar, em média, quatro meses e meio para juntar o dinheiro necessário, comprometendo 30% da renda mensal.

Um projeto do governo federal que propõe tirar a obrigatoriedade das aulas em autoescolas para quem deseja obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) reacendeu o debate sobre o custo e a qualidade da formação de motoristas no país. (Foto: Imagem Ilustrativa/Canva/Reprodução)
Um projeto do governo federal que propõe tirar a obrigatoriedade das aulas em autoescolas para quem deseja obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) reacendeu o debate sobre o custo e a qualidade da formação de motoristas no país. (Foto: Imagem Ilustrativa/Canva/Reprodução)

Setor teme impacto econômico e risco à segurança

Questionada pela reportagem da CBN Floripa, a Associação de Trânsito do Estado de Santa Catarina (Atraesc) se posicionou contra a proposta:

“A ATRAESC é contrária ao fim da obrigatoriedade dos Centros de Formação de Condutores. A medida populista de cunho eleitoreiro tem alto risco regulatório, pedagógico e de segurança viária. E ela não ataca as verdadeiras fontes de custo para o cidadão, que são as taxas públicas e burocracias estaduais”, afirmou a presidente Yomara Julita Ribeiro, em nota.

Atualmente, o Estado conta com 630 CFCs credenciados, todos ameaçados de impacto econômico direto, segundo a entidade.

— Existe o risco de fechamento em massa e demissões, porque nós já estamos sentindo a queda na procura pela primeira habilitação — explicou Yomara.

A presidente ainda alerta para o risco de aumento de acidentes caso o projeto seja aprovado.

— Sem a prática supervisionada e a trilha pedagógica dos CFCs, pessoas mal preparadas irão às ruas, o que tende a levar o número de sinistros, sobretudo no primeiro ano de habilitação. Isso pressiona o SUS, pois mais acidentes significam mais atendimentos de urgência. O resultado é fila, custo elevado e desvio de recursos de outras áreas— disse.

A medida, no entanto, divide opiniões e gera preocupação entre entidades de trânsito e o setor de formação de condutores. (Foto: Imagem Ilustrativa/Canva/Reprodução)
A medida, no entanto, divide opiniões e gera preocupação entre entidades de trânsito e o setor de formação de condutores. (Foto: Imagem Ilustrativa/Canva/Reprodução)

Autoescolas relatam preocupação com futuro incerto

Larry Gayer, dono de uma autoescola familiar há mais de 35 anos em São José, na Grande Florianópolis, acredita que a proposta “não se sustenta”.

Segundo ele, os custos operacionais, como gasolina, manutenção e adaptação dos veículos, tornam inviável a ideia de instrutores independentes mais baratos.

— Esses instrutores vão precisar de toda a estrutura, o que também vai ser caro para eles, e o valor será repassado para os alunos — afirma Gayer.

Larry lembra que as autoescolas também cuidam da burocracia do processo, pagando taxas e intermediando etapas junto ao Detran. Ele compara o modelo brasileiro ao dos Estados Unidos, onde o aprendizado pode ocorrer em casa, mas com “regras mais rígidas e fiscalização intensa”.

— Se hoje as autoescolas não são fiscalizadas para saberem se estão de fato entregando um bom serviço, imagina se existirem instrutores independentes. O certo é que exista fiscalização para acabar a irregularidade, e não acabar com a autoescola.

Experiências opostas de quem passou pelo processo

Gabrieli Zolet teve uma boa experiência com a autoescola que tirou a primeira habilitação, com o processo concluído em cerca de 60 dias, Mylenna Prado enfrentou o oposto: três anos, quase R$ 5 mil gastos e frustração com o fechamento da autoescola.

— Tive uma boa experiência com a autoescola. Todo o processo demorou em torno de 60 dias. Como eu basicamente não sabia nem ligar o carro, as aulas foram fundamentais, principalmente a didática de aprendizado dos instrutores— conta Gabrieli.

Para ela, o acompanhamento foi decisivo:

— A autoescola me orientou do início ao fim sobre todos os processos, exame psicotécnico e demais procedimentos. Com certeza, tirar a obrigatoriedade vai atrapalhar. A gente já sofre diariamente com imprudências e impaciência no trânsito, e isso só vai aumentar — opinou Zolet.

Do outro lado, Mylenna teve o sonho interrompido pela falência da autoescola onde estava matriculada. Ela foi uma das mais de 700 pessoas prejudicadas após o fechamento do local em 2024. Segundo o Procon, a empresa possuía algumas das irregularidades, como a mudança de endereço sem autorização legal e a cobrança de taxas extras:

— Pensei que iria terminar o ano com uma carteira de habilitação, tinha planos pra isso e não consegui por conta de outras pessoas que não foram responsáveis. Durante o processo tive vários dias de estresse, não foi uma experiência boa — contou.

Para Mylenna, a falta de fiscalização é o que mais prejudica o setor.

— O modo atual das autoescolas é bastante rígido e nem sempre considera as particularidades de cada aluno. Acredito que uma possibilidade de formação mais flexível poderia tornar o processo mais acessível e adequado a diferentes realidades — acrescenta.

O debate nas redes

Nas redes sociais, o tema também provoca divisões. “Auto-escola virou máfia. Mas CNH sem preparo é homicídio doloso”, escreveu um usuário.

Outro comentou: “Essa lei que tão querendo aplicar de tirar a CNH sem precisar da autoescola é maluquice, eu já imagino a loucura que vai ser mais ainda no trânsito brasileiro”.

Há também quem veja a proposta como uma chance de justiça social. “Sem politizar, a ineficácia da autoescola é evidente. No caso do pobre, fica sem CNH pois custa dois meses do salário dele”, publicou outro internauta.

O que diz o Detran de Santa Catarina

O Departamento Estadual de Trânsito de Santa Catarina informou, em nota, que acompanha “com atenção as discussões em âmbito nacional sobre a proposta de dispensa da obrigatoriedade de frequentar os Centros de Formação de Condutores (CFCs) para a obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH)”.

Segundo o órgão, as informações sobre o projeto ainda carecem de detalhes técnicos e normativos que permitam um parecer conclusivo. Destacando que qualquer mudança significativa exige ampla discussão, análise de impacto e regulamentação por parte dos órgãos competentes.

O Detran catarinense também destacou o papel essencial dos CFCs, responsáveis por formar condutores mais conscientes, preparados e comprometidos com a vida no trânsito.

Até que novas normativas sejam publicadas, o processo de habilitação no Estado segue sem alterações.

Leia também

Revelado estado de saúde de bebê baleado durante execução de homem em Florianópolis

Bebê no colo do pai é baleado e homem acaba morto com dez tiros em Florianópolis

Florianópolis decreta emergência depois de danos causados pela erosão costeira

Destaques CBN