Mais de 1400 professores sofreram violência em escolas estaduais de SC este ano
A violência nas escolas estaduais de Santa Catarina revela desafios profundos na relação entre educadores, alunos e famílias. Em 2025, 1.434 professores foram vítimas de ataques, segundo dados do Núcleo de Educação, Prevenção, Atenção e Atendimento às Violências na Escola (NEPRE), da Secretaria de Estado da Educação (SED).
A pesquisa do Núcleo aponta que casos de violência física e psicológica contra profissionais da educação deixaram de ser isolados. Especialistas do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre as Violências (NUVIC) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) indicam que esse fenômeno pode estar acontecendo pela difusão potencializada das situações com as redes sociais ou até por disputas ideológicas.
Como alternativa de acolhimento aos profissionais que enfrentam essas situações, o Governo do Estado segue implementando um novo projeto intitulado “Programa Acolher Professor SC”. A iniciativa busca oferecer suporte mental e emocional aos educadores vítimas diretas ou indiretas da violência nas escolas.
Como a violência muda o ambiente educacional
Para Maria Luiza*, orientadora educacional de uma escola pública no bairro Rio Vermelho, em Florianópolis, a experiência diária tem refletido um ambiente mais perigoso.
— Eu continuo acreditando na educação como um ato de resistência e cuidado, mas hoje vivo com medo.
A profissional explica que diariamente precisa lidar com situações que colocam em risco a sua segurança. Como exemplo, ela relembra um caso que em 2023 marcou sua trajetória, ao ser vítima de agressões físicas e perseguições:
— De um dia para o outro, passei a ser alvo de ataques virtuais e até ameaças presenciais. Pais exaltados entraram na unidade exigindo explicações, e a situação rapidamente saiu do controle. O que era uma questão pedagógica virou perseguição — relembrou.
Ela relatou que a situação começou ao atender o pedido de uma estudante trans de 16 anos, que solicitava usar o banheiro conforme a identidade de gênero. O pedido se transformou em uma polêmica.
— O que vivemos na escola é reflexo direto de um movimento de intolerância. O espaço escolar vira um campo de disputa ideológica — conta.
Tensões como essa geram um impacto direto na docência. É o que explica Patricia de Moraes Lima, professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Catarian (UFSC) e pesquisadora integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre as Violências (NUVIC).
— Quando professores acolhem questões de gênero, raça e direitos humanos, enfrentam resistência. Isso gera impacto direto na docência, criando sofrimento psicológico e medo constante — explica.
Impactos da violência vão além da integridade física
A pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre as Violências (NUVIC), aponta que a violência contra o professor não termina no momento da agressão, deixando marcas psicológicas profundas, e o medo de que o episódio se repita.
— O ambiente escolar reúne aspectos imprevisíveis, e isso gera impacto na saúde mental. A precarização da educação, a falta de investimento e as condições inadequadas das escolas também podem intensificar esse cenário de vulnerabilidade — continua a pesquisadora.
Ela destaca ainda que o comportamento de crianças e adolescentes em ambiente escolar possuem relação direta com a sociedade, explicando que esses casos não nascem do nada.
— Os estudantes precisam ser considerados a partir dos seus contextos sociais e culturais e esse é um desafio grande para os professores e professoras na escola, porque exige investimento em formação — analisa.
Alternativas para enfrentar a violência já estão em andamento
O Programa de Valorização do Professor Catarinense, lançado no Dia dos Professores, inclui medidas para proteger os docentes, como a promoção da cultura de paz e o registro formal das ocorrências de violência. É o que aponta a Secretária de Educação do Estado.
Além disso, o Programa da Secretária conta com uma equipe multiprofissional do NEPRE que realiza rodas de conversa, formações, grupos de trabalho e palestras nas escolas e nas 37 Coordenadorias Regionais de Educação, buscando identificar situações de risco e acompanhar os casos.
A ação busca reforçar o compromisso em promover um ambiente seguro e sadio para todos, incluindo profissionais, famílias, alunos e a sociedade.
Para a pesquisadora Patricia de Moraes Lima, medidas de prevenção como essa devem sim envolver políticas públicas efetivas, responsabilização de agressores e valorização do trabalho docente, reconhecendo a escola como espaço de formação cidadã e proteção social.
— É fundamental que a sociedade e o Estado reconheçam o valor do trabalho educativo e garantam segurança, respeito e liberdade pedagógica aos educadores — comenta Lima.
*Maria Luzia, nome fictício criado para proteger o entrevistado.