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Risco no verão: Incidentes em trilhas e costões aumentam em 2025 em Santa Catarina

Números mostram aumento de ocorrências em trilhas em Santa Catarina e na Capital, com crescimento dos atendimentos pré-hospitalares e maior acionamento de resgates; em 2025, foram 385 registros
23/12/2025 - 08:31 - Atualizada em: 27/12/2025 - 21:11
(Foto: CBMSC, Divulgação)

Com a chegada do verão e as projeções de calor intenso para os próximos meses, Florianópolis se prepara para receber milhares de moradores e turistas interessados em trilhas, costões e praias. Mas, além do aumento no fluxo de pessoas, outro fator preocupa especialistas: os eventos climáticos extremos, que têm deixado o ambiente natural mais instável e elevado o risco de acidentes.

Segundo o socorrista e guia de ecoturismo Alessandro Nelito Adriano, fundador da Live the Life Adventure, fenômenos como chuva intensa repentina, ressacas, aumento da temperatura e mudanças rápidas no nível da maré têm sido cada vez mais frequentes — e impactam diretamente a segurança de quem pratica atividades ao ar livre.

— Por mais que se tenham previsões climáticas, tudo pode mudar muito rápido. Uma trilha que parecia segura pela manhã pode apresentar risco horas depois por causa de uma mudança brusca nas condições — afirma Alessando, que é praticante de esportes outdoor e socorrista há quase 20 anos.

Do ano passado para cá, o número de incidentes em trilhas e costões aumentou em Santa Catarina, de acordo com o Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC). Em 2024, o Estado registrou 315 ocorrências em trilhas relacionadas a atendimentos pré-hospitalares (APH) e ações de salvamento, busca e resgate.

Os chamados envolveram desde quedas, mal súbito e picadas de animais peçonhentos até pessoas perdidas, em surto psicótico, além de resgates de animais e atendimentos a motociclistas e usuários de quadriciclos em áreas de difícil acesso. Do total, 182 ocorrências foram de APH e 147 de salvamento, busca e resgate. Em Florianópolis, foram contabilizados 80 atendimentos ao longo do ano, sendo 30 de APH e 53 de salvamento e resgate.

Ainda em 2024, 29 dessas ocorrências em Santa Catarina contaram com o apoio das aeronaves Arcanjo. A maioria dos atendimentos aéreos ocorreu em áreas de mata, morro e trilhas (23 casos), além de seis resgates em costões. Na Capital, o Arcanjo foi acionado em 12 ocorrências, sendo sete em mata, morro ou trilha e cinco em costões.

Já em 2025, houve aumento. Santa Catarina somou 385 registros, crescimento de 70 ocorrências em relação ao ano anterior. Desse total, 237 atendimentos foram classificados como APH e 168 como ações de salvamento, busca e resgate. Em Florianópolis, os chamados também subiram, chegando a 106 ocorrências, com 52 atendimentos pré-hospitalares e 62 operações de salvamento e resgate.

O uso das aeronaves Arcanjo também se manteve elevado em 2025. Ao todo, 31 ocorrências em Santa Catarina tiveram apoio aéreo, sendo 24 em áreas de mata, morro ou trilhas e sete em costões. Na Capital, o helicóptero foi empregado em 17 atendimentos, dos quais 12 ocorreram em mata, morro ou trilha e cinco em costões, reforçando a demanda crescente por resgates complexos em ambientes naturais.

Risco aumenta por imprudência e fenômenos climáticos, diz especialista

Para Alessandro, parte dessas ocorrências está ligada tanto à imprudência quanto à falta de percepção sobre o impacto dos fenômenos climáticos atuais.

— Hoje vemos chuvas fortes caindo sem aviso, ressacas que avançam sobre costões e ondas de calor que desidratam rapidamente. Se o aventureiro não tiver preparo, equipamento e informação, o risco aumenta muito — reforça.

O especialista lista algumas orientações fundamentais no cenário de clima extremo. Por exemplo, antes de iniciar uma trilha:

• Planeje o percurso: Busque informações com guias profissionais ou moradores experientes. Trilhas sem sinalização podem gerar confusão após chuvas que modificam o terreno;
• Use roupas adequadas: Evite caminhar apenas de roupa de banho. O ideal é calçado fechado, calça e camiseta de manga longa para evitar cortes, arranhões e exposição solar intensa;
• Leve os itens obrigatórios, como:
o água e alimentos leves;
o celular carregado (preferencialmente com powerbank);
o kit básico de primeiros socorros;

— E nunca deixe de avisar alguém sobre o horário de entrada e saída da trilha. Quando ocorre uma mudança brusca de clima, minutos fazem diferença em um resgate — acrescenta Alessandro.

Já nos costões e no mar, as dicas, segundo o especialista, são:

• Evite se aproximar da borda durante dias de ressaca;
• Observe a tábua de marés — o aumento repentino pode isolar o visitante;
• Respeite integralmente as orientações dos guarda-vidas.

— Correntes de retorno podem aparecer mesmo com o mar aparentemente tranquilo. O mar não deve ser subestimado, especialmente em períodos de instabilidade climática — completa.

De acordo com os bombeiros, o ideal é que a visita a estes lugares seja guiada por alguém experiente, que conheça o percurso, pois em caso de acidente o local de difícil acesso pode dificultar o socorro.

A praia da Guarda do Embaú, em Palhoça, é um exemplo de local onde os visitantes têm muitas opções de lazer ao ar livre além da praia, segundo o CBMSC. Lá, é comum ver as pessoas atravessando a pé o Rio da Madre, pois alguns bancos de areia produzem pontos mais rasos.

— É um local perigoso, principalmente no auge da maré enchente ou vazante, quando a correnteza é maior. Por isto foi instalado um cadeirão de observação para os Guarda-Vidas orientarem os banhistas — explica o 3° Sargento BM Cláudio Luiz Andrade.

O militar destaca que o ideal é não se arriscar e utilizar embarcação para transpor o rio.

Na Guarda do Embaú há também as trilhas, que não devem ser feitas com tempo chuvoso ou terreno muito molhado. Ainda, não é aconselhável levar crianças, esclarece o soldado dos bombeiros, Jeferson de Souza. A orientação na verdade vale para todos os passeios deste tipo.

Uma observação importante sobre as cachoeiras, adiciona a corporação, é a mudança brusca do volume de água, que pode acontecer devido a chuvas mais acima do nível do local. Jeferson conta que ao perceber que há previsão de chuva para o local ou proximidades do passeio, não é aconselhável se aproximar ou tentar cruzar uma cachoeira ou riacho.

— O volume de água pode triplicar, carregar as pessoas de repente e dificultar possíveis salvamentos — explica.

Nas cachoeiras deve-se evitar o banho em local com pouca visibilidade na água, muito profundos ou com correnteza, além de tomar cuiado ao saltar, conforme o CBMS.

“Equipamentos são aliados, mas não substituem um guia preparado”

Com o clima mais imprevisível, a presença de guias treinados se torna ainda mais decisiva, segundo o especialista. De acordo com Alessandro, aplicativos de navegação ajudam, mas não substituem o olhar técnico de quem conhece o terreno e entende os riscos ambientais.

— Equipamentos e apps são aliados, mas não substituem um guia preparado. Nossa equipe é formada por profissionais habilitados em resgate, primeiros socorros e segurança, justamente para reduzir ao máximo qualquer risco.

Praticante de esportes outdoor e socorrista há quase 20 anos, Alessandro — conhecido pelos clientes como Lê — fundou a Live the Life Adventure em 2021, em Itajaí (Foto: Arquivo Pessoal)

*Sob supervisão de Nicoly Carla

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