Frase do dia de Rossandro Klinjey: ‘Hoje repetir alguns padrões dos nossos pais seria uma benção’
Por muito tempo, uma das maiores conquistas de uma geração parecia ser não se tornar aquilo que seus pais foram. Crescer significava identificar os erros da família, questionar regras e prometer que, quando chegasse a própria vez, seria diferente.
Essa sensação aparece na música Como Nossos Pais, de Belchior. Para o psicólogo e palestrante Rossandro Klinjey a canção carrega uma espécie de frustração, apesar de toda a vontade de romper, a nova geração descobre que continua carregando comportamentos, valores e conflitos herdados de quem veio antes.

Décadas depois, Renato Russo retomou essa mesma discussão a partir de outro lugar. Em vez de olhar para os pais apenas como aqueles que deveriam ser responsabilizados pelas dores da infância, trouxe também a perspectiva de que eles foram, um dia, crianças. Antes de serem pais, também foram pessoas tentando entender o mundo.
Para Rossandro, a geração atual venceu a batalha que Belchior perdeu. Conseguiu ser radicalmente diferente dos pais.
Nem tudo que veio antes precisava ser destruído
O psicólogo explica que a geração atual conseguiu romper com muitos padrões que durante décadas foram tratados como naturais dentro das famílias. A autoridade baseada no medo, os gritos, as agressões físicas e uma hierarquia em que crianças não tinham espaço para questionar foram, em muitos casos, colocados em xeque. “Parte disso foi avanço civilizatório”, afirma.
“Na pressa de jogar fora o que machucava foi junto muita coisa que sustentava”
Em seu quadro diário na CBN, Rossandro explica que existe uma diferença entre abandonar aquilo que machuca e rejeitar tudo aquilo que veio antes. Na tentativa de construir uma educação completamente diferente da recebida, algumas famílias podem acabar encontrando outro extremo. Rossandro relata que essa será a primeira geração com desempenho cognitivo menor que o anterior, segundo ele “Nossos pais erraram muito, mas erraram presentes, com limites. A gente erra moderno, terceirizando a infância pra uma tela que não ama ninguém.” Contudo, “hoje repetir alguns padrões deles seria uma benção”, segundo Rossandro.
A reflexão de Rossandro Klinjey sobre a peneira entre gerações
Rossandro defende que uma das grandes tarefas de cada geração seja olhar para o que recebeu, questionar o que precisa ser questionado e, ao mesmo tempo, ter maturidade para reconhecer que nem tudo precisa ser descartado.
Belchior cantava sobre a angústia de perceber que, apesar de todos os esforços, uma geração poderia continuar parecida com a anterior. Hoje, talvez a pergunta seja outra: e se algumas das coisas que tanto tentamos deixar para trás fossem justamente aquelas que ainda precisamos aprender a preservar?
No fim, Rossandro explica que a ruptura completa talvez nunca tenha sido o objetivo. O verdadeiro trabalho de uma geração é construir uma peneira própria: deixar passar aquilo que pode ser transformado e reter aquilo que, mesmo antigo, ainda sustenta.
Assista ao comentário completo de Rossandro Klinjey no quadro “Refletir para Viver”
*Sob supervisão de Vitória Hasckel