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Florianópolis tem o inverno mais frio dos últimos 25 anos

Em junho deste ano, Florianópolis bateu a menor temperatura registrada na capital desde 2000
04/07/2025 - 08:38 - Atualizada em: 04/07/2025 - 11:31
Temperaturas permanecem baixas (Foto: Tiago Ghizoni, Arquivo CBN)

O dia mais frio de 2025 em Florianópolis até agora foi dia 25 de junho, segundo a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). Às 7h, a estação meteorológica do Carijós, localizada no Norte da Ilha, marcou 0,84ºC. A temperatura também foi a menor já registrada na cidade desde o ano de 2000, segundo série histórica analisada pela Epagri.

A última vez que a cidade teve uma temperatura tão baixa foi no dia 14 de julho de 2000. Neste dia, uma das estações da Epagri marcou, pela primeira vez na história das medições na cidade, 0ºC na capital catarinense.

As medições de temperatura em Florianópolis são feitas desde 1964, com um vácuo nas análises entre os anos de 1968 e 1996. Por isso, é possível afirmar que o inverno de 2025 é o mais gelado na cidade dos últimos 25 anos.

Segundo a meteorologista da Epagri, Gilsânia Cruz, houve uma mudança nas medições de temperatura nos últimos anos. Ela explica que até 2016, as medições eram feitas manualmente, no modelo chamado de convencional. Um técnico era responsável por ir pessoalmente até a estação e registrar os dados e as variáveis.

— De 2016 para frente, nós não tínhamos mais como manter as convencionais, porque precisa de pessoal. As estações, então, passaram a ser quase completamente automáticas. Esses dados [de temperatura] são enviados várias vezes por dia e colocados no banco. Com os dados salvos, nós temos um banco de dados, com temperatura por horário e vários valores que são registrados durante o os dias —, explica.

Embora a Epagri tenha registrado 0,84ºC neste ano, as pessoas não viram este número nos termômetros. isso porque as estações de medição ficam em espaços controlados, sem exposição ao vento e outros elementos que podem impactar no valor final da temperatura registrada. Além disso, segundo a meteorologista, a mínima normalmente ocorre durante períodos matutinos, madrugas principalmente.

Histórico das mínimas em Florianópolis

Histórico das mínimas registradas em Florianópolis. (Fonte: Epagri/CIRAM) de Mídias NSC

Desde a mudança, as medições de temperatura são feitas de maneira automática nas estações da Epagri, localizadas no Itacorubi, na região central da cidade, e no Carijós.

Desde 2000, nenhum outro ano havia marcado temperatura inferior a 1ºC em Florianópolis. Os outros três picos negativos já registrados aconteceram em 2021, 2007 e 2016, com mínimas de 1ºC; 1,1ºC; e 1,6ºC, respectivamente.

Mínimas registradas na capital

Segundo a meteorologista da Epagri, Gilsânia Cruz, não é possível afirmar que os invernos estão ficando mais frios só com base na análise do histórico das temperaturas. O que acontece, com base nos dados registrados, são alguns picos de frio em períodos distintos ao longo das últimas décadas.

— Neste mês de junho (2025) nós tivemos um pico, e em 2000 tivemos um outro muito significativo. O que acontece é que quando temos a chegada de massas de ar frio de origem polar com intensidade moderada/forte, como é o caso de agora e também de 2000, nós temos essa condição com temperaturas bem baixas, que se aproximam de 0ºC, inclusive aqui na Ilha — explica a meteorologista.

Apesar da temperatura registrada, o fenômeno, conforme ela, é comum e não significa que o inverno tem sido um dos mais rigorosos.

— Essa massa que ocorreu ali em junho é intensa para época do ano, ela traz um frio intenso, mas, ao mesmo tempo, ela teve três dias de duração. e isso é normal —, explica.

De acordo com a especialista, essas massas de ar frio podem trazer temperaturas baixíssimas com duração breve e, logo em seguida, seguem para o oceano.

— Quando temos previsão de um inverno muito rigoroso, esses deslocamentos [de massas de ar, por exemplo] são mais lentos e, nesses casos, temos dias consecutivos de frio intenso, de 5 a 7 dias —, afirma.

Segundo o professor de Meteorologia Reinaldo Haas, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o frio intenso tem sido resultado de um fenômeno de aquecimento e esfriamento súbito da estratosfera, que gera um sistema raro de alta pressão, causando massas de ar fio como as sentidas em Florianópolis.

— O que é estranho é que, no ano passado, nós tivemos dois eventos seguidos [de alta pressão], esses no Hemisfério Norte. Normalmente, acontece um a cada seis anos. Agora, nós tivemos praticamente três em dois anos —, explica o professor.

Para os próximos dias, o professor Reinaldo afirma não haver previsão de massas de ar frio tão fortes como a última, pelo menos no período de 16 dias que está sendo monitorado. Ainda assim, outras massas de ar podem trazer novos períodos gelados pela cidade.

— É importante notar que as massas de ar frio esfriam o solo. Então, outras massas de ar frio, mesmo menos intensas, podem produzir mais sensação fria, mesmo não tendo igual intensidade —, destaca.

Frio em Florianópolis

Riscos e cuidados com a saúde

A exposição ao frio intenso e alguns dos hábitos comuns em períodos como esse, podem causar uma série de impactos na saúde. Segundo o médico geral Eduardo Viscovi, da Unidade Básica de Saúde de Palhoça, na Grande Florianópolis, as baixas temperaturas e os comportamentos das pessoas durante essa época podem desencadear vários problemas.

— O nosso corpo, ao identificar uma mudança de temperatura ambiental, vai iniciar alguns processos inflamatórios e também imunológicos que podem facilitar com que algumas doenças se agravem —, explica.

Pacientes com doenças respiratórias como asma ou doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), podem ter um aumento dos sintomas, causado pela mudança brusca de tempo e a exposição à baixas temperaturas.

— É bem importante não se expor diretamente ao frio. Caso saia para a rua, que seja bem agasalhado — orienta.

Além de evitar a exposição direta às baixas temperaturas, Eduardo também alerta para a importância da hidratação. Segundo o médico, pouca água no corpo pode causar uma resposta imunológica pior. Com o frio, a própria umidade do ar é mais escassa, aumentando a necessidade de hidratação.

— Se não estar conseguindo tomar água, então troca por líquido quente. Pode tomar chás, por exemplo, só é necessário tomar cuidado em relação a qual tipo de chá, porque alguns podem provocar efeitos colaterais.

Durante o primeiro semestre de 2025, em Santa Catarina, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) totalizou 8.025 notificações até o dia 28 de junho.

De acordo com o Boletim epidemiológico da Secretaria de Estado da Saúde (SES), a maior incidência foi de vírus como adenovírus, vírus sincicial respiratório e rinovírus, com 3.116 casos (38,8%). Em sequência, os maiores casos envolveram a Influenza, com 1.546 casos (19,3%), e pela Covid-19, com 265 casos (3,4%).

Na Grande Florianópolis, foram registrados 1.666 casos e 65 óbitos por vírus respiratórios no período. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado, a maioria das notificações envolve crianças e idosos.

Perigos ocultos em pessoas com comorbidades

Uma condição afetada pelo frio também apresenta um risco maior para pessoas com pressão alta e outras comorbidades. De acordo com o médico geral Eduardo Viscovi, em períodos de frio intenso, o corpo passa por um processo de vasoconstrição periférica.

— Essa resposta do corpo faz com que haja um aumento da pressão arterial, e esse é bem perigoso para pacientes, principalmente, que tem risco cardiovascular.

Nesses casos, o médico orienta que as pessoas com pressão alta ou histórico de problemas cardíacos, façam acompanhamento regular da pressão, além de fazer visitas mais frequentes ao médico e com a medicação em dia.

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