Entenda porque Cazuza cuspiu na bandeira do Brasil durante show
A música “Brasil” de Nilo Romero, George Israel e Cazuza, é considerada um dos maiores protesto da música popular brasileira dos anos 1980. A canção se tornou ainda mais conhecida após a execução histórica de Cazuza em um show em 1988 no palco do Canecão, no Rio de Janeiro, quando o cantor cuspiu na bandeira do país.
A cena aconteceu quando alguém jogou uma bandeira do país aos pés dele. O artista, então, pegou o símbolo nacional, esticou e deu duas cusparadas. A atitude ficou conhecida como um protesto artístico e gerou muitas críticas.
Entenda o momento histórico
Em meio à inflação galopante e ao alto desemprego, além de décadas de censura e falta de transparência na ditadura, a população ansiava por mudanças. Ainda que a nova Constituição Federal tenha avançado nesse sentido, a tensão social no país era latente, o refrão “Brasil, mostra a tua cara/ Quero ver quem paga pra gente ficar assim” fala sobre isso.
Nesta segunda-feira a morte do poeta da MPB, que faleceu devido a complicações geradas pela aids, completa 35 anos. Para homenagear o cantor, a cena da cusparada no Canecão é exibida e debatida no documentário “Cazuza: Boas Novas”, de Nilo Romero e Roberto Moret, que estreia este mês nos cinemas.
Confira a carta de Cazuza na integra:
“Está havendo uma polêmica, um “escândalo”, como dizia o Jornal do Brasil de terça-feira, 18 de outubro, com o fato de eu ter cuspido na bandeira brasileira durante a música ‘Brasil’ no meu show de domingo no Canecão. Eu realmente cuspi na bandeira, e duas vezes. Não me arrependo. Sabia muito bem o que estava fazendo, depois que um ufanista me jogou a bandeira da plateia.
O Sr. Humberto Saad declarou que eu não entendo o que é a bandeira brasileira, que ela não simboliza o poder, mas a nossa história. Tudo bem, eu cuspo nessa história triste e patética.
Os jovens americanos queimavam sua bandeira em protesto contra a guerra do Vietnam, queimavam a bandeira de um país onde todos têm as mesmas oportunidades, onde não há impunidade e um presidente é deposto pelo ‘simpies’ fato de ter escondido alguma coisa do povo.
Será que as pessoas não têm consciência de que o Vietnam é logo ali, na Amazônia, que as crianças índias são bombardeadas e assassinadas com os mesmos olhinhos puxados? Que a África do Sul é aqui, nesse ‘Apartheid’ disfarçado em democracia, onde mais de cinquenta milhões de pessoas vivem à margem da ‘Ordem e Progresso’, analfabetos e famintos?
Eu sei muito bem o que é a bandeira do Brasil, me enrolei nela no Rock’n Rio junto com uma multidão que acreditava que esse país pudesse realmente mudar. A bandeira de um pais é o símbolo da nacionalidade para um povo. Vamos amá-la e respeitá-la no dia em que o que está escrito nela for uma realidade. Por enquanto estamos esperando”.
*Com informações de O Globo
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