Como tradição com uvas virou sinônimo de romance e vendas em Florianópolis
Florianópolis tem praias, pôr do sol disputado e uma coleção de superstições que se renovam a cada virada de ano. Entre elas, uma atravessa gerações e ganha força especialmente no Réveillon: comer uvas debaixo da mesa para atrair sorte — e, quem sabe, um novo amor. Na Capital, a tradição não só movimenta o consumo da fruta, como também rende histórias curiosas que viraram relacionamento sério meses depois.
A tradição não se reflete apenas no emocional, é também sinônimo de oportunidade para vendas. Supermercados como o Direto do Campo, referência em hortifruti na Grande Florianópolis, veem o fim de dezembro como sinônimo de bancas cheias e carrinhos carregados de uvas. Segundo o diretor comercial, Elder Besen Filho, a procura cresce tanto na semana do Natal quanto na do Ano-Novo, impulsionada por rituais e celebrações.
De onde vem a simpatia?
A tradição de comer uvas na virada do Ano Novo vem de um costume muito praticado na Espanha, chamado las doce uvas de la suerte (as “doze uvas da sorte”, em tradução livre). Nesse costume, as pessoas comem 12 uvas à meia-noite, uma para cada badalada do relógio, associando cada uva a um mês do ano que começa.
A deia é simbolizar boa sorte e prosperidade para os 12 meses seguintes. Essa prática está documentada desde o final do século XIX e foi popularizada no início do século XX, possivelmente como forma de incentivar o consumo de uvas em anos de safra abundante na região de Alicante e também com registros da tradição na praça Puerta del Sol, em Madri.
Com o tempo, essa tradição se espalhou para outros países, incluindo na América Latina e no Brasil, e ganhou variações populares. Além de comer as 12 uvas, há quem faça o ritual de formas diferentes — por exemplo, comer algumas uvas debaixo da mesa, ou adaptar o número para sete uvas, conforme a crença de cada família.
Vendas de uvas crescem até cinco vezes no fim de ano na Grande Florianópolis
De acordo com o diretor comercial, entre o final de dezembro e fevereiro a venda de uvas chega a ser cinco vezes maior do que no restante do ano. Nem sempre, porém, a produção consegue acompanhar o aumento da demanda.
Além disso, questões climáticas podem limitar a oferta e impactar os preços. Em 2025, a produção está atrasada e a safra do Rio Grande do Sul deve começar apenas depois do dia 20 de dezembro, o que pode refletir no valor da fruta para o consumidor. A expectativa é de que, com a chegada da safra da uva Niágara da Serra Gaúcha, especialmente de Bento Gonçalves e Caxias do Sul, os preços dessa variedade diminuam.
Entre as variedades disponíveis ao longo do ano estão Rubi, Thompson, Verde Itália, Vitória e Niágara, vendidas a quilo ou embaladas. No fim do ano, as mais procuradas são a Thompson, sem semente, e a Niágara, preferidas tanto para consumo in natura quanto para compor mesas de festas.
Como as uvas de fim de ano levaram ao amor
Entre quem seguiu a tradição está Maria Paula da Costa Saraiva, de 22 anos, formada em Letras – Português pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ela conta que sempre teve superstições de Ano Novo, como usar roupa branca, pular sete ondas e fazer pedidos na virada. Há dois anos, contudo, passou a incluir o ritual de comer 12 uvas, uma para cada mês do ano.
— Não sei se tive sorte em todos os 12 meses daquele ano, mas em 5 de julho de 2024 me tornei a pessoa mais sortuda do mundo, porque conheci o amor da minha vida. Não sei se foi graças às 12 uvas ou “à uva”, mas desde que conheci ela nunca me senti com tanta sorte — afirma ela.
Foi depois da virada de 2023 para 2024 que, em julho daquele ano, Maria Paula conheceu Ana Carolina Burnier dos Santos, de 21 anos, estudante de Direito da UFSC. As duas se encontraram em um happy hour no campus, durante o entreblocos do Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Desde então, não se separaram e o namoro segue firme.

Sete uvas e novos caminhos
Outra moradora de Florianópolis, Camilla Lúcia Leopoldo, de 20 anos, também seguiu a tradição das uvas na virada do ano. Na ocasião, comeu sete uvas acreditando que o ritual poderia trazer sorte em 2025.
— Na virada do ano, eu comi sete uvas porque disseram que a gente encontraria sorte ou amor em 2025. Eu queria a sorte — conta.
Naquele momento, Camilla vivia um relacionamento que não estava bem, segundo ela. Ao longo do ano seguinte, ela passou na UFSC e, com a nova rotina acadêmica, conheceu quem viria a se tornar seu atual namorado.
— Acabei encontrando tanta sorte quanto amor em 2025. Passei na UFSC e encontrei uma pessoa que está sempre ali comigo e me apoia incondicionalmente. Acho que graças às sete uvas eu encontrei tanto a sorte quanto o amor — diz.

*Sob supervisão de Nicoly Carla