Quem é o ex-advogado que deixou os tribunais para registrar baleias-francas e corujas noturnas em Florianópolis
Nas primeiras horas da manhã, sob o sol da costa catarinense, ele monitora o oceano à procura do sopro das gigantes marinhas. À noite, quando a maioria da cidade adormece, interna-se no silêncio denso da mata, guiado apenas pelo som das folhas e por fachos de lanterna. Esse contraste define a rotina do fotógrafo Rafael Paz, profissional que transformou o registro da fauna de Florianópolis em uma ferramenta de preservação ambiental e pesquisa científica.
A jornada de Rafael até a fotografia de natureza, contudo, não começou no mar nem na floresta, mas entre processos e audiências jurídicas. Natural de Porto Alegre, ele atuou como advogado por cerca de uma década antes de redefinir a própria trajetória. A mudança teve início gradual em 2017, quando se mudou para o Rio de Janeiro e comprou sua primeira câmera fotográfica. A paixão pela imagem logo superou a carreira no Direito. “Eu advoguei por mais ou menos dez anos. Em 2019, pedi demissão do escritório porque já pegava alguns trabalhos como fotógrafo e queria atuar exclusivamente com isso”, relembra.
Após migrar dos ensaios e da fotografia urbana para as paisagens naturais, o profissional escolheu Florianópolis como residência fixa em 2022. Na Ilha de Santa Catarina, estruturou uma atuação diversificada que engloba expedições fotográficas, cursos de capacitação, vídeos institucionais e projetos dedicados ao monitoramento da fauna local.










A fotografia aérea a serviço da ciência
A temporada de baleias-francas em Santa Catarina apresenta um desafio técnico singular para os fotógrafos de vida selvagem. Diferente de outras espécies conhecidas por saltos acrobáticos constantes, a baleia-franca passa a maior parte do tempo nadando rente à superfície, o que dificulta a captação de imagens a partir da praia. Para contornar essa limitação visual, Rafael adotou a tecnologia de drones como sua principal ferramenta de trabalho na costa. “Para a baleia, eu utilizo o drone em 99% das vezes. A baleia-franca tem uma característica diferente: ela salta muito pouco, sai muito pouco da água. Fotografar com a câmera em terra é bem mais difícil”, explica.
A localização dos cetáceos ao longo do litoral depende de uma rede comunitária de monitoramento. O fotógrafo acompanha grupos de avistamento e conta com o apoio crucial de amigos surfistas que chegam cedo às praias. Em 2024, o Mirante do Morro das Pedras consolidou-se como o principal ponto estratégico de observação devido à presença frequente dos mamíferos. As imagens aéreas captadas vão além da beleza estética e alimentam diretamente as pesquisas do Instituto Australis. O material permite identificar os padrões únicos de calosidades na cabeça de cada indivíduo, dados enviados regularmente à pesquisadora Karina Groch para a fotoidentificação no catálogo da espécie.
Essa cooperação já rendeu registros inéditos. Na temporada de 2024, Rafael documentou três baleias adultas nadando juntas e, dias depois, reencontrou uma das fêmeas já acompanhada por seu filhote recém-nascido. Em anos anteriores, ele capturou imagens raras de um filhote semialbino ao lado da mãe de coloração escura.
No entanto, o aumento do uso de drones na região acendeu um alerta ético. O descumprimento dos limites de proximidade pode causar sérios distúrbios comportamentais nos animais. “Uma pessoa filmando com drone do alto conseguiu ver outro equipamento muito próximo da baleia lá embaixo. Isso gera debate nos grupos: é importante manter a distância mínima para não incomodar, especialmente quando a mãe está com o filhote, pois pode alterar o comportamento e até afastar o filhote da mãe”, alerta o profissional, ressaltando a importância do respeito à fauna.
O universo do projeto “Corujas da Ilha”
Quando a luz do sol se despede na Ilha, a dinâmica de trabalho se transforma completamente. Em parceria com um biólogo local, Rafael criou o projeto “Corujas da Ilha”, iniciativa que conduz pequenos grupos em expedições noturnas pelo interior de áreas de vegetação nativa. Embora a coruja-buraqueira (Athene cunicularia) seja uma figura bastante popular nas praias e áreas abertas da cidade, a biodiversidade noturna de Florianópolis guarda surpresas: “A gente já fotografou seis ou sete espécies que vivem aqui em Floripa. Tem aquela buraqueira tradicional, mas há outras espécies bem diferentes daquela que estamos acostumados a ver”, ressalta.
Ao contrário do ambiente marinho aberto e iluminado, a fotografia de aves noturnas demanda silêncio absoluto, conhecimento biológico e câmeras acopladas a lentes teleobjetivas de longo alcance, além de iluminação manual controlada. O processo de avistamento envolve o mapeamento dos chamados “poleiros” — galhos altos onde as aves aguardam as presas — e o uso criterioso da técnica de playback, que consiste em reproduzir a vocalização da espécie em caixas de som para atraí-la por curiosidade ou defesa de território.
A ética no manejo da luz é um dos pilares da expedição para não ofuscar ou estressar as aves em seu momento de caça. “A gente não pode ficar com a lanterna muito tempo apontada para a coruja. Iluminamos por 20 a 30 segundos, no máximo, desligamos, esperamos mais um pouco e repetimos. Isso evita atrapalhar a rotina de caça do animal”, detalha Rafael. A atividade exige alternar momentos de escuta atenta, disparos precisos da câmera e intervalos no uso da lanterna.
O impacto político e o papel social da fotografia ambiental
A dualidade entre registrar gigantes dos mares a partir do ar e encontrar pequenas aves noturnas no interior da mata converge para um objetivo único: a conscientização sobre a riqueza natural de Florianópolis e a urgência de sua conservação. Para Rafael, a fotografia atua como uma ponte sensível entre a sociedade e a vida selvagem, tocando pessoas que muitas vezes não têm contato direto com o ecossistema local. “O papel do fotógrafo de natureza é esse: conscientizar, mostrar as belezas e contribuir para que a gente tenha isso disponível por muitos e muitos anos”, afirma.
O fotógrafo destaca ainda que a preservação da biodiversidade está diretamente ligada a decisões políticas e ao debate público sobre a conservação do patrimônio natural. Questões como a privatização de praias e o avanço do desmatamento ameaçam os hábitats das espécies terrestres e os berçários das baleias. Ele defende que o acesso gratuito às trilhas e praias é um direito que precisa ser protegido ativamente pela população. “A questão política interfere diretamente na conscientização e no aumento de indivíduos de baleias. Se todo mundo fica encantado com essa beleza, por que não cuidamos dela?”, questiona.
Sob supervisão de Pablo Olave Brito”