Na pista da Costeira, o skate vai além do esporte e se torna espaço de aprendizado: “Aprendi mais sobre a vida do que sobre manobras”
Para compreender a atmosfera da pista de skate da Costeira, em Florianópolis, é preciso observar o fluxo contínuo de quem orienta e de quem aprende. Aos 22 anos, João Vitor Abreu, o “Joãozinho”, circula pela pista com o olhar atento de quem conhece cada ângulo do concreto. Sua relação com o skate começou aos 13 anos, quando um projeto social promovido pela Associação de Skate da Costeira (ASCOP) subiu o morro onde o, naquela época, adolescente morava para oferecer os primeiros contatos com o esporte.
Aos 16 anos, Joãozinho já auxiliava nas aulas e, em 2022, decidiu fundar sua própria escolinha, a “Skate Sempre”. O nome carrega uma homenagem afetuosa a um amigo falecido que costumava saudar os companheiros com essa expressão. Para Joãozinho, ensinar é um exercício contínuo de alteridade: “Como instrutor, eu consigo ver o pensamento de cada um, o que cada um está sentindo, a frustração, o medo, a coragem, a determinação. Mesmo ensinando, eu ainda tô aprendendo. O skate me ensinou muitas lições da vida que nem se comparam às manobras que aprendi. Eu acho que aprendi mais sobre a vida do que sobre manobras”, destaca.
Entre os alunos de Joãozinho estão os irmãos Ariel Queiroz, de 11 anos, e Eduardo Queiroz, de 9 anos. A ligação dos garotos com o skate vem de berço: o pai, hoje com 46 anos, embalava os filhos sobre o skate na própria pista da Costeira quando eles ainda eram bebês. Hoje, praticando há quatro anos e frequentando as aulas no início da noite, os dois dividem metas técnicas e o entusiasmo pelas amizades que cultivam no local. Ariel projeta manobras como o boneless finger flip, enquanto Eduardo desafia o 540, mas ambos ressaltam que a essência do treino está no convívio.
“Significa alegria, diversão, não só esporte. Se tivesse skate sem amigos, sem professor, sem ninguém, seria muito chato”, relata Ariel. Seu irmão, Eduardo, completa o raciocínio sobre a dinâmica das sessões no parque: “Dá para brincar com os amigos, daí enquanto anda, dá para ficar conversando e aprender manobra junto”, afirma.













O skate não tem idade
O skate em Florianópolis desafia estereótipos sobre idades e origens. Aos 60 anos, o engenheiro Tahseen Al-Quereshe mostra que o shape e os eixos de aço não pertencem exclusivamente aos mais jovens. Praticante há cerca de quatro anos e meio, Tahseen decidiu subir no skate por um desejo de compartilhar uma atividade esportiva do zero com o filho. O filho eventualmente parou, mas o engenheiro permaneceu, superando inclusive uma fratura no braço, próxima ao ombro, logo no primeiro mês de prática.
Habituado ao surfe desde 1977, ele estabelece um contraste entre a dinâmica das ondas e o ambiente das pistas de skate em Santa Catarina: “No surfe as pessoas rezam para você cair, e no skate as pessoas torcem para você acertar para evoluir. É um torcendo pelo outro. É um negócio muito diferente, um jeito de viver diferente. A irmandade, as pessoas… Em qualquer pista em que tu vais, tu és sempre bem recebido, com a maior camaradagem”, reflete o engenheiro.
Para Tahseen, dropar um pequeno quarter representava um sonho no início, algo que se desdobrou na meta de competir no circuito catarinense na categoria Master. e ele enxerga a pista como um espaço democrático de expressão:
“Se tu anda bem, anda mal, não importa. É uma sensação de liberdade de pensamento, liberdade de expressão, sem julgamento nenhum, independente de idade, cor, sexo, situação financeira, profissão. Tu podes encontrar meninas de 3 anos, meninos, homens… É um universo totalmente aberto.”
Tahseen Al-Quereshe
A busca pelo desafio e pela superação do medo também conduz a trajetória de Nathalia Alves, empresária de 39 anos. Atleta de patinação artística desde os dois anos de idade, Nathalia migrou para o skate há cerca de 15 anos, quando decidiu encerrar o ciclo nas competições sobre patins. Moradora do Rio Tavares, ela costuma frequentar a pista da Costeira bem cedo para pegar o local vazio antes do expediente de trabalho, além de andar no Entorno do Avaí, sob a ponte, e na pista da Raia.
Nathalia aborda a presença feminina no esporte e o enfrentamento do medo com pragmatismo e proteção: “Skate é um desafio, a chance de você se machucar é muito grande. E eu acho que esse é o maior medo das mulheres. O legal é que cada vez mais mulheres tentam se desafiar mesmo. Coloca equipamento, bundeira, joelheira, tudo o que for possível para não se machucar e vai.”
Para a empresária, o desempenho sobre as quatro rodinhas funciona como um espelho de sua vida pessoal e profissional: “O skate transmite muito como eu tô me sentindo. Quando você está confiante, é meio que tentar os desafios diários prazerosos. Ajuda para tudo na vida. Eu me sinto mais forte, mais capaz.”
Disciplina e referências
A reputação de Florianópolis como polo formador de grandes nomes do skate mundial, com referências como Pedro Barros, Isadora Pacheco e Yndiara Asp, inspira os mais jovens a encarar as rodinhas com compromisso diário. É o caso de Luca Andriola, de 13 anos. Morador do Rio Tavares, perto da Hi Adventure, Luca subiu pela primeira vez em um skate aos três anos por incentivo do pai, mas passou a treinar seriamente aos sete.
Praticando diariamente e cumprindo a rotina de ter uma aula semanal para treinar os exercícios passados pelo professor, Luca acumula a conquista do flip e busca dominar o 540, de olho nas competições e na transição para o profissionalismo: “O skate me deixou mais focado, mais ativo, melhor na minha disciplina. Consegui aprender mais com meus erros, saber que, para eu conseguir alguma coisa, eu tenho que ficar tentando e lidar com os erros, saber que o erro faz parte do aprendizado”.
Aos olhos de Luca, o skate atua como uma válvula de escape essencial nos dias mais difíceis, permitindo “esvaziar a cabeça e dar um rolê mais suave”. Essa dimensão subjetiva e terapêutica é compartilhada pelo próprio instrutor Joãozinho, que observa diariamente a transformação de comportamento em seus aluno na pista da Costeira, cada trajetória revela uma maneira diferente de se relacionar com o skates:
“O skate é inexplicável, porque é uma sensação única que só quem sobe em cima do skate consegue sentir. É liberdade de expressão. Quando a gente está chateado, anda mais revoltado. Quando está calmo, anda tranquilo. A gente chega dentro da pista e esquece de tudo. Parece que os problemas foram embora, a gente só está pensando em andar de skate, estar com os amigos e se divertir”, finaliza o professor.
Sob supervisão de Vitória Hasckel