Mãe carrega caixão de desconhecido após troca de 3 corpos, precisa enterrar filho duas vezes e caso vira alvo do Ministério Público
O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) instaurou um procedimento para apurar possíveis irregularidades na atuação do Instituto Médico Legal (IML) de Florianópolis após a troca de três corpos que levou famílias a velarem e sepultarem pessoas erradas. O caso ocorreu em abril de 2026 e ganhou repercussão após a mãe de um jovem de 24 anos precisar enterrar o filho duas vezes.
A apuração foi aberta pela 40ª Promotoria de Justiça da Capital, no âmbito do controle externo da atividade policial, após a divulgação do caso pela imprensa. O objetivo é esclarecer as circunstâncias do erro, verificar se os protocolos de identificação e liberação dos corpos foram cumpridos e apurar eventuais responsabilidades.
Segundo o MPSC, também serão avaliadas possíveis falhas nos procedimentos internos, diante de relatos sobre o volume de trabalho e a eventual insuficiência de servidores durante os plantões na unidade.
As primeiras diligências incluíram pedidos de informações à funerária envolvida e à Superintendência da Polícia Científica de Santa Catarina. O Ministério Público solicitou esclarecimentos sobre a retirada dos corpos, a atuação dos profissionais de plantão e os procedimentos adotados para identificação, custódia e liberação. Também foram requisitadas informações sobre a investigação administrativa conduzida pela Corregedoria da Polícia Científica.
O procedimento ainda está em fase de instrução, com diligências preliminares para reunir elementos que permitam avaliar o caso e definir as medidas cabíveis.
Como ocorreu a troca de corpos
O caso envolve Juliano Henrique Guadagnin da Silva, de 24 anos, que morreu em um acidente de moto em Florianópolis no dia 9 de abril. Na mesma data, outros dois homens, Denner Dario Colodina e Patrick Nunes Ferreira, foram vítimas de homicídio. Os três corpos foram recolhidos pela mesma viatura e encaminhados à unidade da Polícia Científica na Capital.
No dia seguinte, dois corpos foram liberados para as funerárias responsáveis pelos procedimentos de despedida. No entanto, houve uma troca durante a entrega, o corpo de Denner foi encaminhado à família de Juliano, enquanto o de Patrick foi entregue à família de Denner. O corpo de Juliano permaneceu no IML.
As duas famílias realizaram os velórios e sepultamentos sem saber do equívoco. As cerimônias ocorreram com os caixões fechados, e a troca só foi identificada posteriormente, quando um familiar foi ao IML para reconhecer um dos corpos.
Em entrevista à NSC TV, Mônica Raquel Guadagnin, mãe de Juliano, relatou a dimensão do sofrimento causado pela falha. “Eu velei uma pessoa achando que fosse meu filho, eu carreguei o caixão de uma outra pessoa achando que era meu filho”, afirmou.
Após a descoberta, os corpos sepultados incorretamente foram exumados e passaram novamente pelo IML para que a identificação fosse corrigida. Os sepultamentos adequados ocorreram no dia 13 de abril.
Polícia Científica reconheceu erro operacional
Em nota divulgada após o caso, a Polícia Científica de Santa Catarina reconheceu que houve um erro operacional na unidade de Florianópolis durante a liberação dos corpos e pediu desculpas às famílias afetadas.
A instituição informou que a inconsistência foi identificada pelo próprio sistema de controle interno e que o caso passou a ser investigado pela Corregedoria, com o objetivo de esclarecer as causas, identificar responsabilidades e determinar eventuais medidas disciplinares e preventivas.
O órgão também afirmou ter iniciado a revisão dos protocolos relacionados à custódia, identificação e liberação de corpos, com a intenção de reforçar os controles e evitar que situações semelhantes voltem a ocorrer.
A apuração do MPSC é independente da investigação administrativa da Polícia Científica e busca verificar tanto as circunstâncias específicas da troca quanto a adequação dos procedimentos adotados pelo órgão responsável.
*Com informações do MPSC, do g1 SC e da NSC TV.
*Sob supervisão de Vitória Hasckel